sábado, 15 de outubro de 2011

Selecionado pelo Programa Petrobras Cultural para Bolsa de Produção Literária e publicado pela Editora Iluminuras, Curare é um livro de etnopoesia (a partir do conceito dado por Jerome Rothenberg para dilatar o que se entende por poesia no âmbito da literatura). Trata-se de um extenso poema dividido em fragmentos autônomos que se relacionam densamente com um lugar étnico-afetivo: Entxeiwi. Com essa expressão, que se avizinha a ‘bom-dia’, Tikuein – apelido de José Luciano da Silva – ou Nhangoray (Mão Pelada), seu nome indígena (do grupo Xetá), falecido em 2009 e um dos últimos falantes da língua Xetá, iniciava uma conversa com o espelho. É com esse lugar étnico-afetivo que o poema se relaciona, lugar que foi rito oral e exercício-limite para alguém que se encontrava como um dos últimos falantes de uma língua. Mas é uma relação disseminadora, pois uma língua nunca morre, porque não há língua, mas línguas, sempre línguas. Assim, a expressão ‘entxeiwi/bom-dia’, no livro Curare, apresenta-se como uma variante livre do sentido ‘carpe diem’ (Horácio), vulgarmente traduzido por ‘viver o dia’. Se o gesto ‘carpe diem’ busca dizer o que se esgota no instante presente, uma expressão para o ‘viver o agora’, dizer ‘entxeiwi’ ao espelho, em uma língua esquecida, pode nos abrir o sentido poético desta língua, sentido este que está em todas as línguas. Que é também o lugar da tradução, do double bind. É desse lugar que Curare se abre feito ‘brecha escancarada’ em sua própria cosmogonia. E se recorro ao ‘carpe diem’, antes de evocá-lo formalmente, um épico, procuro dizê-lo no sentido que a expressão ‘entxeiwi’ se me apresenta, ou seja, lugar de potência que tanto necessita o poema que não quer nunca se acabar, que é continuum de variações crescentes. O lançamento será dia 22 de outubro, a partir das 15 horas, integrando um Evento múltiple no Tardanza: Minifeira de revistas, livros, gravuras e impressos de artistas e lançamentos de Curare e LAB#4.

2 comentários:

  1. é impressão minha ou o rótulo "etnopoesia" tem um "q" de preconceito? a língua é indígena, mas é língua, e como vc bem disse, as línguas não morrem...daí acho que caberia mais o termo linguagens...Não quero soar pedante,vê, eu não sou teórica de literatura, só fiquei bastante curiosa pelo livro, cá com meus espelhos.

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  2. linguagens é todas as formas de expressão. e não é isso. é um livro de poesia. poesia que se relaciona com um grupo étnico específico. por isso, etnopoesia. entendeu? mas compreendo a sua preocupação e acho que é válida.

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