domingo, 18 de setembro de 2011


QUE HISTÓRIA É ESSA?

Na Folha de S. Paulo de hoje, o editor Carlito Azevedo fala sobre política editorial. Gostei da entrevista e acho que em alguns momentos ele se posiciona corajosamente. Porém, o que está dito ali, em linhas gerais, nós da Medusa falávamos há uma década. E acho que ele deve falar isso mesmo. O mercado editorial ainda é confuso e são muitas as dificuldades de se fazer circular a poesia. Porém, colocar-se na posição (cabotina) de distanciamento das grandes editoras, já é demais. Afinal, Carlito se associou com uma grande editora. A mais rica do mercado editorial: a Cosac. E nada demais aí. Tudo bem. Porém, é desse lugar que deve falar, ou incorporar esse lugar em sua fala.
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A entrevista abaixo (não disponível na Internet) foi concedida por mim ao artista plástico Francisco Faria e a poeta Josely Vianna Baptista, que organizavam a página literária “Musa Paradisíaca” para o jornal “Gazeta do Povo” e foi publicada em 05 de março de 2000. Basta comparar as entrevistas. A outra, do Carlito, está aqui.


Francisco Faria: Ricardo, quais as principais diferenças entre a proposta editorial da Medusa e a de outras publicações literárias brasileiras?

Ricardo Corona: A principal diferença está nas escolhas de repertórios. As diferenças existentes no mundo artístico e fora dele estão pincelando a cor da época, a idéia de hegemonia está superada. Nesse contexto, em que a diversidade se manifesta em quase todas as modalidades do pensamento humano, uma das antinomias da Medusa em relação a boa parte das publicações atuais se deve ao fato de ela ser feita por um grupo de artistas que se encontra fora do "eixo" Rio-São Paulo, buscando seu espaço, criando seu próprio suporte de comunicação, além de possuírem seus próprios projetos poéticos. Na Medusa, isso se transforma em liberdade de repertórios. Podemos e procuramos publicar trabalhos que no mercado das grandes editoras e no mainstream literário da grande imprensa são ignorados. E o são porque não vendem, e não porque têm qualidade duvidosa. Outra diferença está no campo simbólico. À maneira de Pierre Bourdieu, que defende a idéia de que hoje há lugares de poder político e que é preciso criar contrapoderes em relação a essa concentração editorial, normalmente situada nas metrópoles, o nome "Medusa", via mitologia, é uma usina de referências, uma mitocrítica. Com o mito Medusa, via revista, propomos maior densidade para a diversidade, organizando dossiês que "petrifiquem para se ver melhor" determinada produção de determinado artista, com obra feita, mas pouco difundida. Os dossiês, organizados pela equipe editorial ou por colaboradores, investigam o processo criativo do artista, mostram seu trabalho e trazem visadas críticas. Tem outras diferenças, mas acho que o espaço não permitiria...

Josely Vianna Baptista A idéia seria, então, subverter a lógica da concentração do "capital cultural". Você nos disse que o 10º número da revista trará um recorte crítico diferenciado, uma cartografia paralela da poesia brasileira hoje, dando espaço aos "esquecidos e excluídos". Quais os critérios adotados para se avaliar quem está no limbo ou à margem?

Corona: Os critérios dessa antologia de poesia, acompanhada de ensaio crítico e de uma seleção de trabalhos, estão sendo discutidos pela equipe editorial, a partir das diferentes poéticas atuais, pois a época manifesta uma divergência maior que a de outros períodos. Dentro desse primeiro critério, mais dilatado, defenderemos as releituras poéticas do modernismo de Jorge de Lima e Murilo Mendes, por exemplo; o soneto mais fescenino e escrachado, que trabalha - através da temática - a "contaminação" da forma fixa; a poesia que incorpora aprendizados extra-ocidentais, como o oriki africano; a que dialoga com outras linguagens, fazendo fusão, e que podemos chamar de poesia-jazz, pois mistura poesia com HQ, cinema, letra de música, etc.; entre outras possibilidades...
Quanto a saber quais são os "esquecidos e excluídos", parece-me bastante simples: basta acompanhar os segundos cadernos, dá pra contar nos dedos os poetas publicados. Temos certeza de uma coisa: há uma produção de qualidade inquestionável que não está sendo mostrada, e a Medusa, dentro de seus limites, quer publicá-la.
Acho que existem várias razões para que esses poetas não consigam mostrar seus trabalhos. Uma delas é a escassez de editoras que invistam em poéticas recentes, como investem nos clássicos, por exemplo. Está claro, para mim, que o público vai consumir apenas Drummond, Cabral, Bandeira, se tiver acesso somente à poesia deles.
Então, essa lógica das editoras cria um mercado perverso, contribuindo, consciente ou inconscientemente, para que a poesia vire assunto de especialistas, determinando a pauta dos grandes cadernos culturais, que só irão publicar o que vende.
A Medusa, que está à margem do mercado, que não depende de publicidade paga, não pode fazer parte dele. Seria contraditório. O que acho, sinceramente, é que as revistas brasileiras poderiam radicalizar ainda mais, a exemplo das publicações alternativas da Inglaterra nos anos 80, que pressionaram o big mercado editorial, os grandes jornais e revistas, a ponto de os editores dessas publicações ficarem de olho bem aberto, observando aquilo que as revistas alternativas estavam publicando. Sendo muitas revistas e com propostas radicais diferenciadas, acabaram "despertando" o leitor para outras leituras.
Essa movimentação, mais à margem, acabou influenciando toda a grande imprensa, e a qualidade veio junto. Está certo que não eram publicações literárias, mas a "pressão" coletiva serve como exemplo para qualquer área. Um editor inglês teve que "matar" a sua revista porque ela já estava ficando parecida com as do mercado... Aliás, este é o ponto. Uma revista independente - em todos os sentidos -, no meu entender deve atuar nesse território, enviesando, sempre. O contrário disso é a estagnação, porque, com espaços reduzidos, surge o poder simbólico, com as políticas "estranhas" de poetas que mijam no espaço, como animais demarcando seu território. Ora, isso não é democrático, nem ético. E pior: é a política dos que não querem ser lidos, pois, ao invés de "in/formarem" novos leitores, criam asseclas.

Josely: Seu exemplo das revistas alternativas na Inglaterra é muito oportuno. Mas, em minha opinião, o "mercado" para poesia de autores brasileiros vivos ainda é uma questão simbólica, ou seja, fala-se em mercado para, de fato, referir-se apenas a "acesso a leitores e à leitura". A questão mais parece a de ser ou não ser publicado, a de se ter, como se diz, um "espaço editorial". Mas não se pode esperar que poetas brasileiros, muito menos os vivos, tenham seus livros entre os sucessos editoriais. Você não concorda? Sendo assim, ainda estaríamos na fase de expandir ou delimitar mais amplamente o cânone dos poetas "publicáveis" no Brasil? É nisso que a Medusa joga suas fichas? Na expansão desse "espaço editorial", de forma a abrigar um maior número de poetas?

Corona: Concordo ser impossível que livros de poesia de autores novos estejam entre os sucessos editoriais. É uma questão da natureza da poesia. Por outro lado, os parcos espaços editoriais, o pouco acesso do público à poesia etc., isso tudo está interligado. Antes de jogar qualquer ficha, é preciso distinguir o que é sucesso, senão vai parecer que se pretende um "boom" editorial da poesia através da Medusa... Está certo que estamos no terreno das idéias, das utopias (também as quero de volta), mas esse é um trabalho a ser feito por grande parte das revistas brasileiras. O que consigo observar, do pouco que entendo, é que o grande mercado influencia demais o hábito da leitura, que é mediano, quando não péssimo, e que a poesia está fora dele. Esse é o grande problema. O contraponto disso, na minha opinião - e é aí que a Medusa atua -, é não aceitar passivamente essa condição. Acho que se pode resgatar o significado de "sucesso", o de sucedimento, que pode, inclusive, suceder pela qualidade. Por isso citei a experiência das revistas alternativas da Inglaterra. O sucesso não suja a poesia, nem dói ao poeta, desde que se afirme pela qualidade. Outro contraponto, como você colocou, é a ampliação do cânone. Mas tudo isso passaria por posições e, ainda, por políticas editoriais das revistas.
Finalmente, a maior parte dos poetas da Medusa - mesmo que tenham sido publicados por editoras como Iluminuras, Ciência do Acidente ou Sette Letras - não estão no grande mercado. E também publicamos poetas que sequer possuem livros, quase metade da seção "miniantologia/90", que tem quatro páginas na revista...

Faria: Sua argumentação nos faz pensar que você vê, além do subdimensionamento quantitativo do mercado - muito espaço para poucos autores - um corte qualitativo, que priorizaria alguns tipos de poesia e não outros. Há, de fato, uma atividade poética que não está sendo divulgada na grande mídia impressa, e que envolve um modo diferente de se fazer poesia e de entendimento da atividade literária? Isso seria extraordinário. Caso contrário, não se trata apenas de continuar demarcando novas individualidades, novos poetas, como, aliás, a maioria da crítica literária brasileira vem insistindo há algum tempo?

Corona: Não sei se esse "modo diferente de se fazer poesia e de entendimento da atividade literária", que você refere, seria um resquício do "novo" das vanguardas. Se for, já não tem o mesmo significado. O recorte etnopoético e extra-ocidental de Rothenberg, por exemplo, que comparou os ritmos vocais dos antigos povos da Nova Guiné com a pesquisa sonora (busca do novo, portanto) das vanguardas russas do início do século, colocou-nos outro enfoque, mais aberto, mais abrangente.
Com essa abertura dos modos de se compreender a poesia, também acho que a valorização de qualidades individuais seja um dos caminhos para a investigação crítica. Entretanto, não podemos esquecer que essa valorização individual também passa pela "política da forma", que hoje desprendeu-se dos manifestos dos movimentos literários, recebendo atuação mais invisível. Isso é uma coisa para se pensar. Se hoje os dogmas das escolas literárias não nos servem para nada, precisamos, em contrapartida, fazer com que a ética e a clareza (e também o humor) dos manifestos migrem para as novas revistas literárias. A partir daí,
a poesia adquire um "corpus" heterogêneo e acaba se tecendo, como sempre.

Josely: Em um dos editoriais da Medusa, você diz que a poesia "merece ser ritualizada, colocada à disposição do ser humano, libertando-se dos especialistas". E (talvez pensando em como estancar a enxurrada de poetas de água doce) propõe "poetas-xamãs" para o terceiro milênio. Como seriam os poetas-xamãs?

Corona: Nunca seremos xamãs verdadeiramente. Nosso ambiente cultural é outro. Na tribo, o xamã também é um poeta. Entre nós, o poeta, não é um xamã. Mas podemos criar ligamentos entre essas funções, conectar esses mundos. Existe um número considerável de estetas que pensam que toda referência ao "primitivo", ao intuitivo, contamina a arte. Na origem desse argumento há a idéia de que a poesia não merece ser lida por um grande número de pessoas não-poetas. Que a poesia é produzida num vazio social. Penso justamente o contrário disso. Acho que o material poético deve resguardar superfícies de comunicação que possam ser entendidas por um público maior e diversificado. Espelhando-se nas forças primitivas, que de primitivas não têm nada, essa poesia pode fazer coincidir expansão e qualidade. Entre os índios brasileiros,
segundo Risério, em termos de estética da palavra, os Kuikuro, por exemplo, "distinguem o que é fala, fala cantada e canto. E o canto falado cerimonial tem uma forma textual rigorosa, mais ou menos o que
nós costumamos chamar de erudito". Dias atrás, vi num programa de televisão que na República Tcheca é comum haver leituras públicas de poesia. O que me surpreendeu é que ela é feita por leitores, não por poetas. Os bares dispõem de estantes de livros, um microfone aberto, à disposição de qualquer pessoa que
queira dividir sua leitura de poesia com as outras. Isso é maravilhoso! Ou será que a poesia é uma propriedade intelectual exclusiva de poetas, críticos e universitários? Defendo a idéia de conectar tudo isso, de pensar a poesia para o leitor. Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, dispomos de todos os meios e formas para nos comunicar. Vamos, então, abarrotar esses meios com uma poesia que erice os pêlos, que cause suspiros, enfim, que diga algo mais do que ela mesma. Não se trata de uma insistência sobre a "mensagem" em detrimento da "forma" ou da "técnica". Uma não sobrevive sem a outra. Mas, hoje, vejo uma preocupação excessiva com a técnica. Poeta-xamã é isso: um chamamento para os conteúdos e visões de mundo, tentando devolver o texto à tribo. Acho que a poesia é importante demais para ficar só nas mãos dos poetas.

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