Esta semana recebi a ótima notícia de que o meu livro
Amphibia já estava no site da editora portuguesa Cosmorama (
http://catalogo-cosmorama.blogspot.com/). Ainda não peguei em mãos o livrinho que mostrará parte da minha poesia (pois reúne num só volume
Cinemaginário e
Corpo sutil) para o público português e estou entusiasmadíssimo com a ideia. Abaixo, pra celebrar, um poema e a apresentação do poeta uruguaio-mexicano Víctor Sosa, parte espanhola das três línguas que compõem
Amphibia.

VENTOS E UMA ALUCINAÇÃO
1.
sol tórrido no
aljazar
(lascas de zinco refletindo)
sol batendo
no sal
2.
das costas
do homem na barcaça
— e deu-se à estampa
(um sopro quente passa)
um caligrama na asa
do anjo
aprendiz da chuva
3.
rubricando, rebatendo
no arco-íris riso
da híbrida holografia
(do solo sobe um hálito quente)
espumas ainda agonizam
e novamente
o mar traz à margem sua franja
4.
atrás das pálpebras
o olho dá forma ao sol
: bola vermelha
(um vento mantra passa)
a íris fosforesce
aureolando as pupilas em brasa
5.
no cine Céu
a sessão inicia pelo fim
(o rubro horizonte nubla de repente)
barbatanas no céu anfíbio
guelras no céu íntimo
6.
hojes mais longínquos
lembram
ontens ancestrais
(um peixe roça a pele da pedra)
há uma escritura definitiva
nas estrelas
sílabas
7.
: a gula de luz
de uma galáxia canibal
(a lua finge mas já reflete sóis)
há anos-luz daqui
Andrômeda é a esfinge
da via-lácteaAnfíbios sutis
por Víctor SosaRicardo Corona é um artista completo. Poeta, sim, mas um poeta que sabe como integrar a imagem escrita à imagem sonora, o ritmo à ideia, o necessário substrato oral e corporal a um claro conceito. Suor e sintaxe, fôlego e sólido fundamento, estrutura que flui: pedra evaporada em sons. Este equilíbrio entre o etéreo e o denso, entre o melódico e o rítmico, entre o que ruge e o que sussurra, é o atributo de uma sensibilidade poética − insisto − completa e − sem dúvida − singular. Mas como Corona alcança esta singularidade expressiva? Escutando. Ouvindo com atenção essa tradição − a sua, a nossa, a de muitos − chamada modernidade. Porque todo poeta é um acúmulo de vozes, de influxos, de permanentes ou efêmeros feitiços que ressoam, consonam, reverberam nessa caixa de ressonância com nome próprio que, neste caso, se chama Ricardo Corona. Nela se entrecruzam e se integram (ou seja: se fazem outros na hibridização) alentos como Pound, William Carlos Williams, Leminski, Kurt Schwitters, Hugo Ball, Lautréamont, Ginsberg, Jim Morrison, Mallarmé, Jerome Rothenberg ou Haroldo de Campos. Mas a modernidade e seus representantes também se formam de outras tradições e apropriações culturais, feito o dadá com os cantos tribais, Pound com a poesia chinesa antiga, Rothenberg com as poéticas “primitivas” da Nova Guiné, e tantos outros artistas − até chegar a Corona, que também se alimenta de cantos dos índios yanomami ou dos suruí de Rondônia, bem como dos ritmos próprios das tradições afro-brasileiras. Assimila-se os alimentos com seus diferentes nutrientes até fazer parte de um novo organismo gestor, de um novo recipiente em atenta reciprocidade com aquilo que recebe. O poeta recebe e dá, mas nessa dialética nutritiva se funda sua voz, sua sintaxe peculiar, seus acentos e silêncios − isso que é chamado estilo e que é, sobretudo, respiração personalizada na linguagem. A respiração de Ricardo Corona − que nasce da sua experiência corporal com a linguagem − é reconhecível por sua coerência. Uma coerência nascida, como já disse, do equilíbrio, da emoção − sempre necessária − aquilatada na contenção e ritmo, do assombro diante do mundo que vira palavra. Em Cinemaginário (1999) já vemos essa coerência, essencial, em que confluem mundo e língua: “há uma escritura definitiva / nas estrelas / sílabas”. O universo como livro a decifrar (em correspondência com Baudelaire), mas também como meditação mântrica para além de toda explicação logocêntrica: “um vento mantra passa”, e esse vento funde som com sentido, meditação com reflexão, corpo com intelecto, natureza com cultura. Corona desenha o mantra no verso e vemos (ouvimos) esse vento-verso-mantra nas ondulações da linguagem. Concentrada sintaxe poundiana, mas também, sempre, celebração nessa “poesia // na farra na liga // das línguas!”. Celebração amorosa onde o amor se reúne num espaço análogo, abrangente, igualmente grandioso: “e o amor / não é maior / nem menor / que o mar”. A sabedoria de Corona está em aceitar essa pulsação de amor e mar, assim como na consciência da escritura pessoal que se faz e desfaz no mar da linguagem, nesse fluxo de influências imantatórias, nessa constante metamorfose da poesia: “Ondas deslizantes / redesenham / onde outras ondas ainda / desredesenharão, / fluindo / no fluxo / da influência”. O mundo em constante remodelação (mais natural que divino) e a escritura em sintonia com esse fluxo. Tudo desenha uma mágica causalidade como quando “a chuva desce / pelo cheiro / a terra agradece” e “como as pedras duras / um dia acordam dunas”. Corpo sutil (2005) prossegue nesta pesquisa sobre a linguagem e o mundo, e também sobre esse delicado equilíbrio − corda tensa − por onde Ricardo Corona avança. E começa com uma referência à linguagem zaum do poeta russo Khlébnikov, que deve ser entendida como uma piscadela para o leitor, uma maneira de enfatizar não somente uma escritura preocupada com sua sonoridade, mas também uma leitura que deve ser feita com uma atitude participativa e não passivamente; Corona exige leitores cúmplices que ouçam “o ideograma de Confúcio (...)/ a escultura sonora de Zappa / o sol dos sacerdotes do Egito (...)/ a bondade do bonsai / a estampa de Átila (...)/ o Rio de João Gilberto (...)/ o sachê perfumado do Buda...” e que olhem também, simultaneamente, aquilo que ouvem. Porque a poesia é uma coisa para ver e ouvir, e é algo que se faz com todo o corpo (sutil). Poesia-palimpsesto onde vemos (ouvimos) um dia de verão com as roupas que se agitam no varal e, por sua vez, um ônibus que voa pelos ares, uma mesquita que explode, um menino palestino morto; realidades simultâneas vistas-sentidas-ouvidas pela televisão, o cinema, os jornais de cada dia. Massa de imagens e carne humana, de palavras que brincam com corpos: palimpsesto de vida. Palimpsesto e anfíbios. Zona líquida. “As palavras são peixes dentro d’água” e vão movendo-se (“tá viva a letra”) “no fluxo vivo sem capítulos, / contra a métrica das ondas”. O corpo sutil de Corona é aquoso, não por debilidade, mas por profundidade, por densidade ancestral, por ser anfíbio: “menino-peixe, meio fauno / meio deus marinho / que Iemanjá devolve ao mar”. Também, “uma ninfa montada numa égua d’água” atravessa o corpo sutil desse livro: “livro feito de água”, livro perfeito “porque não se pode / guardar”, como o rio-livro de Heráclito, o livro-peixe de Corona não quer ser eterno, quer se diversificar na densa unidade “no lugar que não se respira / ar”. Em “Estilo da boca”, também anfíbia e dialógica, irrompe a oralidade de Jardelina da Silva e com ela a poesia de cada dia, a gargalhada, a primeira pessoa do singular, a que leva o mundo inteiro dentro de si. Corona se deixa penetrar por esse mundo, por essa fala, porque “tudo que eu falo é o planeta”, e olha de soslaio e escuta os múltiplos sentidos e olha para dentro e olha para fora e abandona a velha poesia vertebrada. Corona transforma-se num invertebrado da língua: “bate n’água / rebate n’alma”, e, com o ouvido atento, faz-se tambor, coração-tambor: bomba. Faz-se tupi na fala percussiva: “ondéquetão / ondéquetá / ondéquetão / ondéquetá” e torna-se somali e, com os cantos dos índios suruí, espírito das águas. Naturalmente, a condição do poeta é ser muitos, e Ricardo Corona flui em sua multiplicidade e metamorfose das formas. Contra o fragmento, cria fractais; contra os buracos negros, cria música; contra o caos, cria silêncios límpidos, estruturas cristalinas e aquosas, poemas-anfíbios. Como diz em Corpo sutil: “contradizer até o fim (...)/ boca maldita não é beata / língua má não cria fungo”. Contradizer o sentido comum, contradizer o politicamente correto, contradizer Caetano Veloso, contradizer a si mesmo: “escrevo para não ser chamado de poeta”, porque “quem me inventou / criou o seu avesso”. Sem dúvida: “a poesia não cabe numa vida”; sem dúvida: a poesia é um longo processo de desobediência; sem dúvida: “a posição da poesia é oposição”. O poeta Ricardo Corona está fazendo um verdadeiro e profundo trabalho de oposição com sua poesia, e o faz com inteligência, com sensibilidade e com um sincero compromisso ético com o mundo e com a linguagem. Integridade, tão sutil quanto corporal, a que devemos agradecer com nossa leitura cúmplice.
Cidade do México, dezembro de 2008.