terça-feira, 14 de fevereiro de 2012


EMBRULHO LÍQUIDO, BIANCA LAFROY!!


Evoé! Finalmente o livro da minha amiga Bianca Lafroy! É com imenso prazer que dou essa deixa, caros leitores. Viva! Acabo de receber uma caixinha com alguns exemplares, acomodados delicadamente com plástico bolha cujo transluz deixa escapar a cor viva da capa: Embrulho líquido! Eis um livro, meus senhores e minhas senhoras, para se ler e transler. E sei bem do empenho dessa moça-moço (desde 2004...) em publicá-lo. Aos reticentes com o seu texto mucoso, ei-lo! Bem-vinda, querida Bianca! (Ricardo Corona)


(texto de contracapa):


Bianca Lafroy es un héroe o una heroína sobrerreal cuya impronta se lee como el negativo de cada poema, en una línea que desciende del argentino paulista Néstor Perlongher, tanto del poeta de “¿Por qué seremos tan hermosas?” como del autor del Negocio del Miché. Prolonga esa línea de exquisita in-definición, en que la impostura de una travesti es el recalco de un andrógino. Ya es hora de que los bordes entre lo masculino y lo femenino se derrumben, y aquí el oído de la poesía está dedicado a la fracción infinitesimal de un rompimiento de fronteras y de un pasaje, como en aquel verso del poeta venezolano Marco Antonio Ettedgui: “se me pasa de hombre a mujer, basta un parpadeo”. Y este parpadeo es el momento poético de Bianca, estupendo pero no requintado. Como una constelación, se van adhiriendo aquí fragmentos de textos imantados por este fenómeno, fragmentos al imán del pasaje a dos tiempos, a dos focos, un delicado equilibrio en que se está sin estar en los platillos del consabido sistema binario del género, más bien rompiendo la opresión y violencia de la matriz del género. En este sentido es un texto profético, una profecía del presente, la medida de una apertura de la sensibilidad, y el descubrimiento de lo que siempre estaba allí. 


Roberto Echavarren


3 poemas de Lafroy:



No mergulho pra dentro de mim
(albina e hibernante
MUÑECA TRÓPICA), vertigem
e precipício,
labirinto sem fio,
viagem à célula-mãe,
costela de Adão
à expansão e alargamento
dos sexos.
Ruir em queda livre
não é ruim.
Só em queda livre se ri de si mesmo.
Ela não dirá mais à sombra de seu próprio ciúme
que as sobrancelhas desalinhadas
são antenas de barata.
Dei-lhe os pelos das narinas
e exigi o cuspe sobre a glande.
Nadja,
A PASSANTE ENIGMÁTICA,
aparição-desaparição
e perigo.
Eu sou todos os mitos
de Maria Madalena.
Eu juro que não sou Júlia Wanderley
Serei Jo Calderone by Gaga?
Leo? Lou?
(“Não sou uma resposta.
Eu sou uma pergunta.”)
Ou o dialeto inventado
em língua-esperma.

Eu sou Hedwig,
o CABEÇA-DE-ROUBADO da ex-alemanha oriental.
Eu sou Nano Florane,
o marinheiro passivo do navio pirata
(desnudo no significado de
frégate
ou como dizem os anglo-saxões
e suas diluições:
frigging).
Eu sou Jean Gejietti,
estudei as ruas e também os mares,
sei dos uniformes dos escravos
que manobravam remos no século XVII,
de sua lona cinza sobre os músculos,
suas correntes se chamavam “ramos”
e os punhos de renda, jabô e meias de seda
do capitão
Notre Homme.
Eu sou François-Timoléon de CHOISY, o abade.
Eu sou Madame Satã, Edwarda?
Ou serei Rrose Sélavy?

domingo, 22 de janeiro de 2012

 (...) Antes uma experiência de meditação emotiva, porque tão livre quanto ciente do inacessível branco. Escrever um apagamento, a violência de dizer o inaudito, sabemos, dói na página. Falo do branco da neve sobre a página branca. Ausência que não permite deitar palavras em busca do mito e, sobretudo, da tragédia. Exceção feita à imagem poética. Céu-branco. Nuvens obsessivas querendo ocupar os vãos. Mas sejamos abomináveis, invisíveis homens que sabem que a noite é também um sol, façamos branco sobre branco. Homem das neves abandonando rastros com suavidade. Sem o desejar, seu gesto tem se inserido no imaginário do mundo. Palavras a troco de pegadas na neve. Épico que dura o tempo do degelo. Por isso dói esse branco na página. Fiquemos com essa dor e, em seguida, troquemo-la pelo frio da neve, em busca da sensação possível, diante do improvável e que esse possa se expandir da branca neve ao branco da página. Expandir-se em invisibilidade. Branco sobre branco sobre branco. Mas não se deixe enganar, pois sabemos que o líquido da neve, seu branco, liquidar-se-á. Branco, frio e água. Corpos diferem – e? Sabemos do abominável. Apesar da invisibilidade. Que o frio contraia os músculos e distraia a imaginação. Contração e dilatação. Os flocos de neve em quedas oblíquas – à deriva do vento –, um a um, suaves e soltos, flocos sem série, sem par, adensam o branco, o frio e a água. (Dói esse falso branco da página). (...)

in: Ahn? [Abominável homem das neves], de Ricardo Corona, da edição brasileira (a sair pela Editora da Casa).
 
(...) Antes una experiencia de meditación emotiva, porque tan libre como esciente del inaccesible blanco. Escribir un apagamiento, la violencia de decir lo inaudito, sabemos, duele en la página. Hablo del blanco de la nieve sobre la página blanca. Ausencia que no permite echar palabras en busca del mito y, sobretodo, de la tragedia. Excepción hecha a la imagen poética. Cielo-blanco. Nubes obsesivas queriendo ocupar los vanos. Pero seamos abominables, invisibles hombres que saben que la noche también es un sol, hagamos blanco sobre blanco. Hombre de las nieves abandonando rastros con suavidad. Sin desearlo, su gesto se va insiriendo en el imaginario del mundo. Palabras a cambio de huellas en la nieve. Épico que dura el tiempo del deshielo. Por eso duele ese blanco en la página. Quedemos con ese dolor y, enseguida, cambiémoslo por el frío de la nieve, en busca de la sensación posible, ante lo improbable y que él pueda expandirse de la blanca nieve al blanco de la página. Expandirse en invisibilidad. Blanco sobre blanco sobre blanco. Pero no se deje engañar, pues sabemos que el líquido de la nieve, su blanco, se liquidará. Blanco, frío y agua. Cuerpos difieren – ¿y? Sabemos de lo abominable. A pesar de la invisibilidad. Que el frío contraiga los músculos y distraiga la imaginación. Contracción y dilatación. Los copos de nieve en caídas oblicuas – a la deriva del viento –, uno a uno, suaves y sueltos, copos sin serie, sin par, adensan el blanco, el frío y el agua. (Duele ese falso blanco de la página). (...)

in: ¿Ahn? [Abominable hombre de las nieves] , de Ricardo Corona, da edição espanhola (a sair pela editora Poetas de Cabra (2).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Curare e Ahn? [Abominável Homem das Neves]



 (Programa e-Cultura, exibido no dia 18/01/2012, na TV e-Paraná)
  
O Programa e-Cultura fez essa matéria por dois motivos bacanas que estão acontecendo. Em outubro de 2011 saiu pela Iluminuras o meu livro de etnopoesia "Curare" (prêmio Petrobras Cultural) e em março próximo sairá simultaneamente em Madri e Jaraguá do Sul outro livro meu chamado "Ahn? [Abominável Homem das Neves]", um mix de prosa-poesia-ensaio, apesar de José María Herranz, poeta e editor espanhol, tê-lo colocado em coleção de poesia e Carlos Henrique Schroeder, escritor e editor brasileiro, tê-lo registrado de literatura (conto). O que me parece muito pertinente à ideia do livro, que é "inclassificável", meio livro-performance, em que me propuz escrever com a página branca (texto preto no branco somente ao rés da página, no rodapé) uma resnarração da presença-ausência do homem das neves.

sábado, 15 de outubro de 2011

Selecionado pelo Programa Petrobras Cultural para Bolsa de Produção Literária e publicado pela Editora Iluminuras, Curare é um livro de etnopoesia (a partir do conceito dado por Jerome Rothenberg para dilatar o que se entende por poesia no âmbito da literatura). Trata-se de um extenso poema dividido em fragmentos autônomos que se relacionam densamente com um lugar étnico-afetivo: Entxeiwi. Com essa expressão, que se avizinha a ‘bom-dia’, Tikuein – apelido de José Luciano da Silva – ou Nhangoray (Mão Pelada), seu nome indígena (do grupo Xetá), falecido em 2009 e um dos últimos falantes da língua Xetá, iniciava uma conversa com o espelho. É com esse lugar étnico-afetivo que o poema se relaciona, lugar que foi rito oral e exercício-limite para alguém que se encontrava como um dos últimos falantes de uma língua. Mas é uma relação disseminadora, pois uma língua nunca morre, porque não há língua, mas línguas, sempre línguas. Assim, a expressão ‘entxeiwi/bom-dia’, no livro Curare, apresenta-se como uma variante livre do sentido ‘carpe diem’ (Horácio), vulgarmente traduzido por ‘viver o dia’. Se o gesto ‘carpe diem’ busca dizer o que se esgota no instante presente, uma expressão para o ‘viver o agora’, dizer ‘entxeiwi’ ao espelho, em uma língua esquecida, pode nos abrir o sentido poético desta língua, sentido este que está em todas as línguas. Que é também o lugar da tradução, do double bind. É desse lugar que Curare se abre feito ‘brecha escancarada’ em sua própria cosmogonia. E se recorro ao ‘carpe diem’, antes de evocá-lo formalmente, um épico, procuro dizê-lo no sentido que a expressão ‘entxeiwi’ se me apresenta, ou seja, lugar de potência que tanto necessita o poema que não quer nunca se acabar, que é continuum de variações crescentes. O lançamento será dia 22 de outubro, a partir das 15 horas, integrando um Evento múltiple no Tardanza: Minifeira de revistas, livros, gravuras e impressos de artistas e lançamentos de Curare e LAB#4.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Wislawa Szymborska: A poesia da outra margem



Acaba de sair Wislawa Szymborska Poemas (Companhia das Letras), com tradução especialíssima (direta do polonês) de Regina Przybycien, que foi professora da UFPR por muitos anos. Em 2005, Regina preparou para a revista Oroboro 4 uma antologia de Wislawa Szymborska que publicamos na seção “(C)obra” (p. 25 a 33, bilíngue), destinada justamente a poéticas importantes que por razões diversas eram pouco divulgadas em português. Não foi nada fácil publicar seus poemas, pois, afinal, trata-se de uma poeta vencedora de um nobel de literatura. Vários contatos com agentes literários reticentes até que tivemos a boa ideia de enviar alguns exemplares de Oroboro diretamente para Szymborska, que liberou imediatamente a publicação do dossiê. Nesta noite teve bebida polonesa no Alto da Rua XV. Agora esta poesia está disponível para os leitores e em excelente tradução. As páginas da Oroboro estão no acervo da Editora Medusa, aqui 

domingo, 18 de setembro de 2011


QUE HISTÓRIA É ESSA?

Na Folha de S. Paulo de hoje, o editor Carlito Azevedo fala sobre política editorial. Gostei da entrevista e acho que em alguns momentos ele se posiciona corajosamente. Porém, o que está dito ali, em linhas gerais, nós da Medusa falávamos há uma década. E acho que ele deve falar isso mesmo. O mercado editorial ainda é confuso e são muitas as dificuldades de se fazer circular a poesia. Porém, colocar-se na posição (cabotina) de distanciamento das grandes editoras, já é demais. Afinal, Carlito se associou com uma grande editora. A mais rica do mercado editorial: a Cosac. E nada demais aí. Tudo bem. Porém, é desse lugar que deve falar, ou incorporar esse lugar em sua fala.
..........................

A entrevista abaixo (não disponível na Internet) foi concedida por mim ao artista plástico Francisco Faria e a poeta Josely Vianna Baptista, que organizavam a página literária “Musa Paradisíaca” para o jornal “Gazeta do Povo” e foi publicada em 05 de março de 2000. Basta comparar as entrevistas. A outra, do Carlito, está aqui.


Francisco Faria: Ricardo, quais as principais diferenças entre a proposta editorial da Medusa e a de outras publicações literárias brasileiras?

Ricardo Corona: A principal diferença está nas escolhas de repertórios. As diferenças existentes no mundo artístico e fora dele estão pincelando a cor da época, a idéia de hegemonia está superada. Nesse contexto, em que a diversidade se manifesta em quase todas as modalidades do pensamento humano, uma das antinomias da Medusa em relação a boa parte das publicações atuais se deve ao fato de ela ser feita por um grupo de artistas que se encontra fora do "eixo" Rio-São Paulo, buscando seu espaço, criando seu próprio suporte de comunicação, além de possuírem seus próprios projetos poéticos. Na Medusa, isso se transforma em liberdade de repertórios. Podemos e procuramos publicar trabalhos que no mercado das grandes editoras e no mainstream literário da grande imprensa são ignorados. E o são porque não vendem, e não porque têm qualidade duvidosa. Outra diferença está no campo simbólico. À maneira de Pierre Bourdieu, que defende a idéia de que hoje há lugares de poder político e que é preciso criar contrapoderes em relação a essa concentração editorial, normalmente situada nas metrópoles, o nome "Medusa", via mitologia, é uma usina de referências, uma mitocrítica. Com o mito Medusa, via revista, propomos maior densidade para a diversidade, organizando dossiês que "petrifiquem para se ver melhor" determinada produção de determinado artista, com obra feita, mas pouco difundida. Os dossiês, organizados pela equipe editorial ou por colaboradores, investigam o processo criativo do artista, mostram seu trabalho e trazem visadas críticas. Tem outras diferenças, mas acho que o espaço não permitiria...

Josely Vianna Baptista A idéia seria, então, subverter a lógica da concentração do "capital cultural". Você nos disse que o 10º número da revista trará um recorte crítico diferenciado, uma cartografia paralela da poesia brasileira hoje, dando espaço aos "esquecidos e excluídos". Quais os critérios adotados para se avaliar quem está no limbo ou à margem?

Corona: Os critérios dessa antologia de poesia, acompanhada de ensaio crítico e de uma seleção de trabalhos, estão sendo discutidos pela equipe editorial, a partir das diferentes poéticas atuais, pois a época manifesta uma divergência maior que a de outros períodos. Dentro desse primeiro critério, mais dilatado, defenderemos as releituras poéticas do modernismo de Jorge de Lima e Murilo Mendes, por exemplo; o soneto mais fescenino e escrachado, que trabalha - através da temática - a "contaminação" da forma fixa; a poesia que incorpora aprendizados extra-ocidentais, como o oriki africano; a que dialoga com outras linguagens, fazendo fusão, e que podemos chamar de poesia-jazz, pois mistura poesia com HQ, cinema, letra de música, etc.; entre outras possibilidades...
Quanto a saber quais são os "esquecidos e excluídos", parece-me bastante simples: basta acompanhar os segundos cadernos, dá pra contar nos dedos os poetas publicados. Temos certeza de uma coisa: há uma produção de qualidade inquestionável que não está sendo mostrada, e a Medusa, dentro de seus limites, quer publicá-la.
Acho que existem várias razões para que esses poetas não consigam mostrar seus trabalhos. Uma delas é a escassez de editoras que invistam em poéticas recentes, como investem nos clássicos, por exemplo. Está claro, para mim, que o público vai consumir apenas Drummond, Cabral, Bandeira, se tiver acesso somente à poesia deles.
Então, essa lógica das editoras cria um mercado perverso, contribuindo, consciente ou inconscientemente, para que a poesia vire assunto de especialistas, determinando a pauta dos grandes cadernos culturais, que só irão publicar o que vende.
A Medusa, que está à margem do mercado, que não depende de publicidade paga, não pode fazer parte dele. Seria contraditório. O que acho, sinceramente, é que as revistas brasileiras poderiam radicalizar ainda mais, a exemplo das publicações alternativas da Inglaterra nos anos 80, que pressionaram o big mercado editorial, os grandes jornais e revistas, a ponto de os editores dessas publicações ficarem de olho bem aberto, observando aquilo que as revistas alternativas estavam publicando. Sendo muitas revistas e com propostas radicais diferenciadas, acabaram "despertando" o leitor para outras leituras.
Essa movimentação, mais à margem, acabou influenciando toda a grande imprensa, e a qualidade veio junto. Está certo que não eram publicações literárias, mas a "pressão" coletiva serve como exemplo para qualquer área. Um editor inglês teve que "matar" a sua revista porque ela já estava ficando parecida com as do mercado... Aliás, este é o ponto. Uma revista independente - em todos os sentidos -, no meu entender deve atuar nesse território, enviesando, sempre. O contrário disso é a estagnação, porque, com espaços reduzidos, surge o poder simbólico, com as políticas "estranhas" de poetas que mijam no espaço, como animais demarcando seu território. Ora, isso não é democrático, nem ético. E pior: é a política dos que não querem ser lidos, pois, ao invés de "in/formarem" novos leitores, criam asseclas.

Josely: Seu exemplo das revistas alternativas na Inglaterra é muito oportuno. Mas, em minha opinião, o "mercado" para poesia de autores brasileiros vivos ainda é uma questão simbólica, ou seja, fala-se em mercado para, de fato, referir-se apenas a "acesso a leitores e à leitura". A questão mais parece a de ser ou não ser publicado, a de se ter, como se diz, um "espaço editorial". Mas não se pode esperar que poetas brasileiros, muito menos os vivos, tenham seus livros entre os sucessos editoriais. Você não concorda? Sendo assim, ainda estaríamos na fase de expandir ou delimitar mais amplamente o cânone dos poetas "publicáveis" no Brasil? É nisso que a Medusa joga suas fichas? Na expansão desse "espaço editorial", de forma a abrigar um maior número de poetas?

Corona: Concordo ser impossível que livros de poesia de autores novos estejam entre os sucessos editoriais. É uma questão da natureza da poesia. Por outro lado, os parcos espaços editoriais, o pouco acesso do público à poesia etc., isso tudo está interligado. Antes de jogar qualquer ficha, é preciso distinguir o que é sucesso, senão vai parecer que se pretende um "boom" editorial da poesia através da Medusa... Está certo que estamos no terreno das idéias, das utopias (também as quero de volta), mas esse é um trabalho a ser feito por grande parte das revistas brasileiras. O que consigo observar, do pouco que entendo, é que o grande mercado influencia demais o hábito da leitura, que é mediano, quando não péssimo, e que a poesia está fora dele. Esse é o grande problema. O contraponto disso, na minha opinião - e é aí que a Medusa atua -, é não aceitar passivamente essa condição. Acho que se pode resgatar o significado de "sucesso", o de sucedimento, que pode, inclusive, suceder pela qualidade. Por isso citei a experiência das revistas alternativas da Inglaterra. O sucesso não suja a poesia, nem dói ao poeta, desde que se afirme pela qualidade. Outro contraponto, como você colocou, é a ampliação do cânone. Mas tudo isso passaria por posições e, ainda, por políticas editoriais das revistas.
Finalmente, a maior parte dos poetas da Medusa - mesmo que tenham sido publicados por editoras como Iluminuras, Ciência do Acidente ou Sette Letras - não estão no grande mercado. E também publicamos poetas que sequer possuem livros, quase metade da seção "miniantologia/90", que tem quatro páginas na revista...

Faria: Sua argumentação nos faz pensar que você vê, além do subdimensionamento quantitativo do mercado - muito espaço para poucos autores - um corte qualitativo, que priorizaria alguns tipos de poesia e não outros. Há, de fato, uma atividade poética que não está sendo divulgada na grande mídia impressa, e que envolve um modo diferente de se fazer poesia e de entendimento da atividade literária? Isso seria extraordinário. Caso contrário, não se trata apenas de continuar demarcando novas individualidades, novos poetas, como, aliás, a maioria da crítica literária brasileira vem insistindo há algum tempo?

Corona: Não sei se esse "modo diferente de se fazer poesia e de entendimento da atividade literária", que você refere, seria um resquício do "novo" das vanguardas. Se for, já não tem o mesmo significado. O recorte etnopoético e extra-ocidental de Rothenberg, por exemplo, que comparou os ritmos vocais dos antigos povos da Nova Guiné com a pesquisa sonora (busca do novo, portanto) das vanguardas russas do início do século, colocou-nos outro enfoque, mais aberto, mais abrangente.
Com essa abertura dos modos de se compreender a poesia, também acho que a valorização de qualidades individuais seja um dos caminhos para a investigação crítica. Entretanto, não podemos esquecer que essa valorização individual também passa pela "política da forma", que hoje desprendeu-se dos manifestos dos movimentos literários, recebendo atuação mais invisível. Isso é uma coisa para se pensar. Se hoje os dogmas das escolas literárias não nos servem para nada, precisamos, em contrapartida, fazer com que a ética e a clareza (e também o humor) dos manifestos migrem para as novas revistas literárias. A partir daí,
a poesia adquire um "corpus" heterogêneo e acaba se tecendo, como sempre.

Josely: Em um dos editoriais da Medusa, você diz que a poesia "merece ser ritualizada, colocada à disposição do ser humano, libertando-se dos especialistas". E (talvez pensando em como estancar a enxurrada de poetas de água doce) propõe "poetas-xamãs" para o terceiro milênio. Como seriam os poetas-xamãs?

Corona: Nunca seremos xamãs verdadeiramente. Nosso ambiente cultural é outro. Na tribo, o xamã também é um poeta. Entre nós, o poeta, não é um xamã. Mas podemos criar ligamentos entre essas funções, conectar esses mundos. Existe um número considerável de estetas que pensam que toda referência ao "primitivo", ao intuitivo, contamina a arte. Na origem desse argumento há a idéia de que a poesia não merece ser lida por um grande número de pessoas não-poetas. Que a poesia é produzida num vazio social. Penso justamente o contrário disso. Acho que o material poético deve resguardar superfícies de comunicação que possam ser entendidas por um público maior e diversificado. Espelhando-se nas forças primitivas, que de primitivas não têm nada, essa poesia pode fazer coincidir expansão e qualidade. Entre os índios brasileiros,
segundo Risério, em termos de estética da palavra, os Kuikuro, por exemplo, "distinguem o que é fala, fala cantada e canto. E o canto falado cerimonial tem uma forma textual rigorosa, mais ou menos o que
nós costumamos chamar de erudito". Dias atrás, vi num programa de televisão que na República Tcheca é comum haver leituras públicas de poesia. O que me surpreendeu é que ela é feita por leitores, não por poetas. Os bares dispõem de estantes de livros, um microfone aberto, à disposição de qualquer pessoa que
queira dividir sua leitura de poesia com as outras. Isso é maravilhoso! Ou será que a poesia é uma propriedade intelectual exclusiva de poetas, críticos e universitários? Defendo a idéia de conectar tudo isso, de pensar a poesia para o leitor. Hoje, mais do que em qualquer outro tempo, dispomos de todos os meios e formas para nos comunicar. Vamos, então, abarrotar esses meios com uma poesia que erice os pêlos, que cause suspiros, enfim, que diga algo mais do que ela mesma. Não se trata de uma insistência sobre a "mensagem" em detrimento da "forma" ou da "técnica". Uma não sobrevive sem a outra. Mas, hoje, vejo uma preocupação excessiva com a técnica. Poeta-xamã é isso: um chamamento para os conteúdos e visões de mundo, tentando devolver o texto à tribo. Acho que a poesia é importante demais para ficar só nas mãos dos poetas.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Eis a capa de Curare, meu próximo livro, feita por Eliana Borges. Trata-se de um longo etnopoema, dividido em 77 fragmentos que poderão ser lidos separadamente e em qualquer ordem. Em outubro a Editora Iluminuras colocará nas livrarias do país. Este livro foi selecionado pelo Programa Petrobras Cultural, o que me permitiu escrevê-lo com bolsa de criação literária. Agradeço a todos que deram uma força: Tikuein (que infelizmente já partiu para outras esferas), Ricardo Aleixo, Eliana Borges, Giuseppe Zani, Joana Corona, Davi Pessoa. Evoé!

sábado, 25 de junho de 2011


A Marcha das Vadias de Curitiba.

16/07/11, às 11:00
Concentração no Passeio Público

terça-feira, 7 de junho de 2011

 curare

sm 1 Veneno muito forte preparado pelos índios sul-americanos, para envenenar flechas. É uma composição de alcalóides extraídos de vários arbustos da família das Loganiáceas, principalmente das espécies Sthrychnos castelnaui, S. crevauxiana e S. toxifera, hoje usada em anestesia, para redução de espasmos no tétano e para produção de relaxamento muscular na terapêutica de choque. 2 Bot. Nome dado a vários arbustos da família das Loganiáceas e das Menispermáceas, que fornecem esse veneno; ervagem, erva-dura. 3 O mesmo que urare, urari, uirari, urali e ticuna.



Hoje, Eliana e eu comemoramos com um bom vinho a abertura do espaço Tardanza (aliás, recomemoramos, pois já havíamos bebemorado no domingo com Joana, Cauê, Fernanda e os novos amigos chilenos Nevenka e Adolfo). Mas hoje a alegria só aumentou porque terminei de escrever o meu livro Curare (bolsa Petrobras, ufa! bacana, hein?). Hoje fiz a primeira encadernação e estou lambendo a cria com leitura atenta e anotações à margem. Está feito e estou feliz paracaralho. Aliás, ficou ducaralho!

Vai três fragmentos que pesquei ao acaso do arquivo.


Pé após pé,

Velhinho,
Cego e gago
vem K h l e b

((((
faraó.com.silício.nas.unhas........
..areia..nos..lábios......
.Saara.nas...pegadas.......
.astro-rei..esturricando...caixa-crânio.....
.....silêncio.e....deserto...
...luz..suga...suga...sombras..
..e...dobras....e.silêncio...cerebral..
...............................neutros.nublam.nutrem....
.excitam...raios.de.outro...........céu....
....camelo.rumina...e.....baba..L S D K A....
....dialeto...mastigado...pelo....clã...
......enfiado..no....deserto...
.pé.ante.pé.na.estepe...
.o....silêncio...não...fisga...a....tempestade...
...de...areia...nos......lábios...............do.sossego....
))) n i k o v :

Sim, vivo e continuo um sonho leve

 
= = =
 
... ¶ o sonho épico do menino yvaparé é rastafári ¶ o sonho épico do menino yvaparé é roms ¶ o sonho épico do menino yvaparé é comanche ¶ é kaigang ¶ o sonho épico do menino yvaparé é melasiano ¶ é suruí ¶ o sonho épico do menino yvaparé é guineano ¶ é yamanes ¶ o sonho épico do menino yvaparé não é atávico ¶ é pigmeu ¶ o sonho épico do menino yvaparé é compósito ¶ o sonho épico do menino yvaparé não é raiz ¶ o sonho épico do menino yvaparé é sonhado sob um céu guarani ¶ o sonho épico do menino yvaparé é trama raiz trançando raízes ¶ é R A I Z - C A M I N H A N T E ¶ é chiapas ¶ é crioulo-quebec ¶ é a trama cigana ¶ é o caos-belo caribenho ¶ o sonho épico do menino yvaparé nem épico é ¶ é épico que se decompõe aos livros de errância ¶ sem miolo ou borda limite ¶ o sonho épico do menino yvaparé papel antes da pilha ¶ é floresta para os grandes livros fundadores das humanidades atávicas ¶ o sonho épico do menino yvaparé nem livro é ¶ é fala sono-insônia multilíngüe de dentro de sua língua ¶ o sonho épico do menino yvaparé um poema dilacerado ¶ ...


= = =

À sua janela

Uma árvore se arvora

Sai de casa
Vai até ela –

É J U A N E L E se penteando:

p a r a q u e e l a i r e f l u y e r a m á s e n t r e l o s h i l o s d e l a f u e r z a

Copa-cabeça,
Cabelo-filamento,
Mechas-folhinhas ao vento.

É Juanele com
suas rugas-afluentes
de rio

(visão pororoca

: o poeta em sua mesopotâmia
desde a infância

SSetá
nas águas
Gualeguay, Paraná,
Iguaçu, Paraguai)

eliana + joana = tardanza



Eliana Borges e Joana Corona abriram o espaço Tardanza e a inauguração será na próxima sexta-feira, dia 10 de junho, às 19h (Av. Senador Souza Naves, 540, casa 3). Conforme elas anunciam, o espaço propõe relações entre arte e pensamento, num sentido extensivo, a partir de articulações e trânsitos diversos, com exposições e outras ocupações e intervenções, conversas, lançamentos de livros e publicações, leituras, mostras de vídeo, cursos, entre outras formas de compartilhar e movimentar o espaço. A ideia é que ele vá acontecendo, existindo desse modo contínuo e inacabado: numa tardanza. E nesta sexta, a primeira ação é dos artistas Nevenka Pavic Sabioncello e Adolfo Torres Frias, com projeto Olla común.

O projeto Olla común é organizado por Adolfo Torres Frias, que vive no norte do Chile, e agora neste projeto Brasil está presente também a artista chilena que vive em Barcelona, Nevenka Pavic Sabioncello. Eles vão ocupar o espaço com colagens, para uma exposição que durará até este próximo domingo (12/6, o espaço já está aberto a partir de quarta, dia 8/6, para quem quiser vê-la, no período da tarde).

Na sexta haverá também uma fala de Adolfo Torres Frias e eles servirão comida chilena, misturada com ingredientes brasileiros. Olla común trabalha com a relação entre arte e gastronomia e o ato social de compartilhar.

Êxito chicas!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

AFRICANIDADES - de 25 de maio a 30 de julho de 2011

Dia 25, próxima quarta-feira (18h30), Ricardo Aleixo e jorge dos Anjos performarão na abertura da exposição coletiva AFRICANIDADES e logo após lançarão seus livros Risco Recorte Percurso, de Jorge dos Anjos e Márcio Sampaio e Modelos Vivos, de Ricardo Aleixo. Africanidades é composta por trabalhos de Rosana Paulino (São Paulo), Jorge dos Anjos (Minas Gerais), Whashington Silveira (Paraná) e José Roberto da Silva (Paraná) e ficará aberta ao público no período de 25 de maio a 30 de julho de 2011, de segunda a sexta, das 09h00 às 18h00. Africanidades, organizada pelo NEAB - Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da UFPR, está compreendida como uma ação importante no processo que visa reconhecer a presença de artistas negras e negros no cenário das artes plásticas nacionais em perfeita sintonia com as linguagens contemporâneas, como produtores/as e não apenas como tema. 

MUSA
Museu de Artes da Universidade Federal do Paraná
Prédio Histórico da UFPR
Rua XV de Novembro, 695 – 1º andar
Informações: Email: neab@ufpr.br.

Abaixo, uma entrevista com Ricardo Aleixo para o dossiê que organizei para a revista Oroboro n. 5 (setembro, 2005): 

A roda do mundo é grande mas a de Oxalá é maior
Por Ricardo Corona

Oroboro Como foi que a poesia entrou na sua vida?
Ricardo Aleixo Quando eu me lembro, mas como, acho que não. Foi em 1977, época em que eu queria saber de futebol mais que de qualquer outra coisa. Já havia lido poemas em livros escolares e, eventualmente, em revistas que me caiam às mãos, mas nada que me fizesse pensar em querer “aquilo” para mim. Gostava de canções, sempre gostei, por causa dos meus pais, que sempre cantaram muito em casa. Inclusive, a música foi a minha primeira forma de expressão artística, ali por volta dos 11 anos, no colégio, quando recebi iniciação musical e integrei um grupo vocal que cantava Beatles, Caetano, Jorge Ben. Lá pelos 14, nas aulas de educação artística, comecei a fazer colagens, objetos e tal. Gostava muito disso. Só aos 17 compus minha primeira fornada de poemas, umas 4 ou 5 manuscrituras, feitas com caneta bic vermelha. Um detalhe: todos esses textos eram compostos por neologismos. Eu, que sempre fui um trocadilhista compulsivo (como meu pai também é, ainda hoje, aos 94 anos), fiquei encantado com essa primeira possibilidade de aproveitar esteticamente uma habilidade que, entre as pessoas “sérias”, sempre me valeu a pecha de moleque, e desatei a escrever poemas. Acho que foi assim.

Oroboro Em 1987, você escreveu uma série de orikis para um espetáculo multimídia, e depois, em 1996, saiu A roda do mundo, livro escrito em parceria com Edimilson Pereira de Almeida e recheado de orikis. Até então, no Brasil, havia mais teoria do que experiência direta com o texto africano, seja no meio antropológico ou literário. Então, praticamente, você inicia a sua atividade artística incorporando e transformando a poética africana em seu trabalho de poesia contemporânea. Gostaria que você falasse sobre essa incursão/inclusão de textos “de fora” ou “extra-literários”.

Aleixo O espetáculo a que você se refere tinha como tema o episódio que ficou conhecido como “Levante dos Malês”, ocorrido em 1835. Foi a mais importante rebelião anti-escravismo ocorrida no século XIX, sendo apontada pelos estudiosos como uma das causas do acirramento da repressão sobre as populações de negros escravizados em todo o país. O detalhe é que os rebelados eram todos convertidos ao islamismo. Falavam e escreviam em árabe, veja só. Li tudo o que fora publicado a respeito e escrevi uma peça-poema, “Jogo de Guerra: Malês”, com uma estrutura textual totalmente aberta, música executada pelos próprios atores e uso de vídeo ao vivo (vários totens feitos com aparelhos de televisão reduplicando as cenas). Os orikis que compus integravam-se a textos em outros formatos: de documentos da época apropriados por mim a epigramas, poemas concretos, até aquelas coisas típicas de almanaque (“Você sabia”?), usei de tudo na peça-poema. Como já disse em outras entrevistas, até então eu não conhecia qualquer estudo de Antonio Risério – nem de qualquer outro pesquisador – sobre os orikis. Minha peça-poema foi escrita em 1987 e montada três anos depois. Escrevi os orikis motivado pela leitura de alguns textos que conheci lendo um desses livros sobre “civilizações antigas”, ali por volta de 1984. Mesmo a tradução, que me pareceu um pouco imperita, não apagou o impacto da beleza das imagens contidas nesses orikis. Passei anos tentando fazer algo naquela linha, mas nada funcionou. Até que escrevi os três que integram o “Jogo de Guerra: Malês”. Mais tarde, foi com entusiasmo que devorei – a palavra é esta – os estudos de Risério, bem como o de outros pesquisadores, além de ter conhecido o fabuloso trabalho de Jerome Rothenberg, que estabelece pontes dialógicas entre os textos orais de diversas épocas e contextos e a “tradição do novo”.

Oroboro Em textos como “Sobre in-utensílios”, publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais, n. 1275 (2004), percebe-se uma bronca com certa crítica balizada pelo multiculturalismo limpinho e importado das universidades norte-americanas, que costuma abrir seções classificatórias do tipo “poesia feminina”, “poesia gay”, “poesia negra”, etc. Acredito que a sua classificação seja “poesia negra” e também, claro, “poesia pós-concretista”. E aí?

Aleixo E aí é que entendo, hoje, que o problema é de quem opera a partir de tais premissas, não de quem recebe os rótulos. Sem esquecer que há muitos poetas que, por razões as mais diversas, desejam ser lidos como “negros”, “gays”, “mineiros”, “bancários” etc. Não é o meu caso. Gosto de citar Platão quanto a esse ponto: “Este cão é teu. E é pai. Logo, ele é teu pai?”. Pergunto: Sou poeta. E sou negro. Logo, sou “poeta negro”? Acho que tem muito de ingenuidade (ainda que uma ingenuidade funcional) por trás dessas definições. Além da preguiça, claro. Classificar ou rotular é simplificar, dando de ombros para a complexidade do mundo – que é, de certa forma, iconizada na poesia. Poesia, como a vejo, é reduplicação, senão prefiguração, da crise, não sua resolução. Não serve como consolo a nada, não edifica, não redime. Meu caso é exemplar, quanto às tentativas de classificação: como nunca neguei a herança da vertente experimental, me rotulam como “concretista”, ou “pós-concretista”. Já quando escrevo orikis, ou poemas que tematizam o desastre da vida nas megalópoles, sou transformado em “poeta negro”, ou “etnopoeta”. A confusão ganhou novos contornos a partir de 1998, ano em que poemas meus foram incluídos, com destaque, no livro Esses Poetas – Uma Antologia dos Anos 90, organizado por Heloísa Buarque de Hollanda. Fui classificado por ela, em entrevistas, como exemplo da “poesia negra contemporânea”. Mas por que só eu fui “enquadrado”, se na própria antologia foram publicados dois outros poetas de pele preta? Paulo Lins foi escalado para representar a poesia escrita nas periferias; Valdo Motta foi apresentado como um “poeta gay”. Ora, por que diabos Lins seria mais “pobre” do que “negro”? E Motta – sua orientação sexual pesa mais, em sua poesia, que sua condição de “negro”? Há um primarismo aí, repetido inconseqüentemente por críticos como Ítalo Moriconi e outros, com o qual não posso concordar. “Poeta negro”, como tenho dito à exaustão, é aquele que se considera como tal, sabendo que suas motivações, quanto ao uso da palavra poética, são extra-poéticas. E nem serve de pretexto para esse reducionismo o fato de eu ter escrito os orikis ou os poemas anti-racismo – que não constituem nem mesmo uns 20% da minha obra publicada. Haroldo de Campos, por essa via de argumentação, teria que ser chamado de “poeta hebraico”, ou “bíblico”, por suas transcriações dos textos sagrados, assim como Alexei Bueno, forçosamente, deveria ser definido como “neo-grego”. Para arrematar: o cubano Severo Sarduy escreveu uma série de esplêndidos orikis, En El Âmbar del Estio, mas nem por isso passou a ser identificado como “poeta negro”, ou “afro-cubano”. Resumo da ópera: precisamos urgentemente, no Brasil, de críticos que aceitem o desafio de ler para além das aparências. Com a poesia é assim: ou você vai fundo, superando os apriorismos, ou é melhor nem chegar perto.

Oroboro Você disse que seus orikis ou poemas anti-racismo não deveriam servir como pretexto para o rótulo “poeta negro”. Lembrei-me de um texto peculiar sobre essa questão dos adjetivos que rotulam determinada produção poética. O texto é “Literatura e mulher: essa palavra de luxo”, de Ana Cristina César, publicado originalmente na revista Almanaque 10 - Cadernos de Literatura e Ensaio, em 1979!, no qual a poeta tentou entender o adjetivo “feminino”, aplicado à poesia de Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa – cujos livros ela resenhava: Flor de Poemas e Miradouro e outros poemas, respectivamente. A partir dos prefácios, pinçando termos chavões tipo “puras”, “líquidas”, “intimidade”, “dom mágico”, “pudor”, etc., Ana Cristina César faz uma análise aprofundada e admiravelmente a favor da poesia, independentemente de quem a escreva, chegando a conclusões pontuais como (esta é a que mais nos interessa aqui): “no fundo, a idéia de procurar uma poesia feminina é uma idéia de homens, a manifestação, em alguns críticos, de um complexo de superioridade masculina. Precisamos abandoná-la, pois a sociologia nos mostra que as diferenças são culturais, de educação, do que diferenças físicas. Diante de um livro de versos, não olhemos quem o escreveu, abandonemo-nos ao prazer.” Isso posto, gostaria que comentasse mais sobre os rótulos, incluindo o ponto de vista da sua liberdade de linguagem (o front da poesia é um território de texto criativo e é fundamental que se coloque isso). Por outro lado, poemas como “Dois exercícios de língua pária” (Máquina zero, 2004), em que você opera uma oportuna e inteligente decupagem do provérbio anglo-saxão “When the going gets tough, / the tough gets going”, exercem influência sobre os textos periféricos. Há alguma contradição nisso? E haveria alguma diferença se fosse maior a militância crítica exercida por poetas?

Aleixo Desde muito jovem aprendi a lidar com as ambigüidades da vida sociocultural brasileira, no que diz respeito a questões como “o lugar do negro”. Adotei como estratégia de auto-preservação (emocional, mas não só) o seguinte princípio: onde esperam de mim o discurso, digamos, engajado, eu forço a mão para discutir, por exemplo, microestruturas verbais, ou sonoras, ou plástico-visuais. E vice-versa: sempre que contam com uma visada “neutra”, “formalista” etc., eu ressalto os aspectos políticos subjacentes ao texto – meus ou de outros autores. Foi o que aconteceu com o poema mencionado por você, “Dois exercícios de língua pária”. Ali quem fala é, sem disfarces, um sujeito negro que, por ser um poeta, valeu-se daquela forma e não de outra para tentar debater um tema que lhe pareceu pertinente enfocar. Só que o faz recorrendo a um artifício bastante sutil, que é a emulação do processo composicional – com seus maneirismos e preciosismos – do autor do texto que buscava criticar. Trata-se, dessa perspectiva, de um enfrentamento via texto que iconiza, com seu tanto de humor, a hipótese – terrível, aos olhos de nossa elite econômica – de, no Brasil, os despossuídos históricos se apossarem das armas que sempre serviram às classes dominantes para exercer a violência coercitiva e a exclusão dos pretos e pobres em geral. Comecei a escrever o poema movido por um ódio muito grande, mas à medida que o trabalho avançava eu percebia a necessidade de tentar responder ao ataque (um ataque covarde, posto que travestido de neutra coloquialidade) de uma forma que transcendesse o cômodo papel da vítima. Um predecessor histórico do meu poema é o famoso “Quem sou eu?”, mais conhecido como “Bodarrada”, do satirista e abolicionista radical Luiz Gama. O poema de Gama data de 1861, e é, segundo Haroldo de Campos, "uma das coisas mais violentas já escritas, na qual ele arrasa com a prosápia dos nobres, dos brancos, fazendo uma coisa corrosiva, diretamente influenciada por Gregório de Matos". Assim, penso que não há contradição em pretender me ver livre de rótulos e assumir, em determinada circunstância, uma posição “ativista”, ou “militante”. Quero é pensar o Brasil e o que nos constitui enquanto projeto de nação. Se, aqui ou ali, acho que devo forçar a mão para dizer coisas que a meu ver precisam ser ditas, faço-o sem nenhum problema. O curioso é que se você perguntar a um militante do movimento negro se Ricardo Aleixo representa “a causa”, ele vai simplesmente rir na sua cara. Quanto à segunda questão, se haveria alguma diferença caso fosse maior a militância crítica exercida por poetas, não sei, honestamente. No geral, a poesia brasileira, ao longo das últimas décadas, parece ter abandonado qualquer aspiração no sentido da ocupação e da ampliação de um espaço público. Por aqui, são raros os poetas considerados do primeiro time que expõem publicamente sua visão da cultura e dos problemas contemporâneos, ao contrário do que ocorre nos EUA, por exemplo, onde nomes como Amiri Baraka, o recentemente falecido Bob Creeley, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snyder e outros jamais deixaram de se posicionar criticamente. Claro que é preciso considerar, também, a extrema redução do espaço público para a poesia no Brasil, onde os cadernos e suplementos culturais são quase totalmente dominados por pseudo-jornalistas e pseudo-intelectuais.

Oroboro O corpo do poema e o corpus da cidade são máquinas do mundo que precisam de mais ironia, humor, sátira, amor?

Aleixo Poema e cidade são “lugares”, na minha visão de mundo, da máxima importância. O poema, por ser, mais que a disposição ordenada de palavras na página, o tensionamento da relação entre elas, as palavras. Com a cidade, que é, para citar o jargão dos urbanistas, um organismo vivo, se dá o mesmo. Por isso me empenho tanto na proposição de estratégias de reconfiguração do espaço urbano – sobretudo por ter nascido e por viver numa cidade fundada sob a lógica positivista. Belo Horizonte é fundada em 1897, ano em que Canudos é destruída. Canudos é o atraso, a mancha que deveria ser rasurada, ao passo que a nova capital das Minas Gerais é saudada como a “Jóia da República”, a marca da modernidade na qual o país seria, enfim, intronizado. A população de Belo Horizonte foi devidamente selecionada entre os habitantes da antiga capital, Ouro Preto, assim como a população que vivia no lugar denominado Curral del Rey foi expulsa para as cercanias da cidade. A fundação da cidade, por isso, assinala um gesto de exclusão que será continuamente reencenado ao longo destes pouco mais de 100 anos. Voltando à analogia entre “corpo do poema” e “corpus da cidade”, concordo com sua definição: são “máquinas do mundo”. Se precisam, para funcionar a contento, de “mais ironia, humor, sátira, amor”? Mais do que nunca. Poema e cidade têm que ser reapropriados, potencializados, eu diria mesmo fertilizados para a festa e o prazer, não podem ser apenas os “lugares” da ordem e dos rígidos finalismos. Têm que ser, também, espaços para palavras/corpos à solta, em pleno “exercício experimental da liberdade”, para lembrar a bela frase do crítico de arte Mário Pedrosa.

Oroboro Exceto no rap, e salvo em alguns poetas, não há uma preocupação em inserir a realidade na linguagem e através dela abrir um diálogo franco com o leitor. Por outro lado, tenho a impressão que os poetas do rap sofrem de um rápido esgotamento do discurso (talvez, justamente por investirem muito no discurso) e se tivessem acesso às maravilhas da linguagem, a poesia avançaria mais do que tem avançado com os poetas “ditos” poetas. Nesse sentido, criamos margens em que todos somos marginalizados, inclusive o leitor. Você concorda com essa afirmação?

Aleixo Os poetas do rap, por aqui, têm se mostrado, em geral, auto-complacentes com sua própria situação de “cronistas do cotidiano”. Num país tão atrasado em questões como a universalização de direitos elementares, como é o Brasil, os rappers têm assunto garantido para uma vida inteira. E não acho que uma literatura, como essa que vem sendo chamada de “marginal”, derivada de alguma forma das experiências textuais do rap, seja a solução para o problema da “marginalização do leitor”. Tudo bem que existam as margens, ou territórios, mas considero bem mais estimulante quando há a possibilidade de trânsito entre um território e outro. E sei que isso é possível. Numa oficina que ministrei no ano passado, conheci uma garota que tinha uma banda de rap e conhecia bem Saul Williams, The Last Poets, Gil Scott-Heron e outros que podem ser apontados como precursores do rap. E olhe: só o fato dela ser mulher num universo predominantemente masculino (e sexista!) já era interessante, mas ela ainda trazia, de quebra, informação poética que a situava muitos pontos acima da média dos “manos” e “minas”. Prova da disposição dessa garota para incorporar dados novos à sua prática é que, durante a oficina, ela lidou com extrema desenvoltura com a vocalização da poesia experimental de diversas épocas, que é o mote do meu trabalho em sala de aula. Agora, em termos mais gerais, não há como negar que o rap tem servido, pelo menos, para despertar os “poetas ‘ditos` poetas” para a necessidade de reconectar a poesia ao corpo. Coisas interessantes têm surgido no campo das performances multimídia, inclusive com o desenvolvimento de parcerias entre poetas e DJs. O rap pode ter sido reduzido a fórmulas verbais-sonoras, mas sua influência é detectável mesmo em poetas como, pasme!, Augusto de Campos. Em entrevista que me concedeu há alguns anos, Augusto admitiu que sua versão do “Gafanhoto”, de cummings, desenvolvida em colaboração com seu filho Cid e incluída no CD/espetáculo “Poesia é risco”, pode ser definida como um “quase-rap”. O que não quer dizer que cummings – ou o próprio Augusto – tenha se tornado um poeta “popular” por conta disso, não é por aí. Mesmo porque existe um tipo de leitor, ou, mais amplamente, de público, que, no tocante à poesia, vai se situar sempre “à margem” de qualquer criação mais elaborada, simplesmente por estar habituado a ter pouco trabalho, em face do facilitário que lhe foi e é oferecido pela indústria dos “pestesellers” (Haroldo de Campos dixit) e dos hits/shit.

Oroboro Com a existência, em nossa época, de tantos programas e meios de gravação digital, não deveríamos organizar melhor um espaço simbólico para a poesia sonora? Isso não está nas mãos da nossa geração? Os americanos parecem trabalhar melhor esse contexto, com o chamado spoken word, que são verdadeiros festivais de poesia, com público cativo e tudo. Tudo bem, eles tiveram os Beats que abriram caminho... Mas nós temos tradições, de norte a sul, tradições orais de poesia como o cordel e a trova... e poderíamos, inclusive, chegar mais perto de um público mais amplo, não acha? Gostaria que comentasse essas questões que levantei rapidamente e também falasse do seu projeto de gravar um CD de poesia.

Aleixo Estamos começando a fazer isso, muito lentamente. Discos como o “Poesia é risco”, de Augusto e Cid Campos, “Têmpera Mental”, de Décio Pignatari, Livio Tragtenberg e Wilson Sukorski, certos trabalhos de Arnaldo Antunes, o seu “Ladrão de fogo” – sobre o qual cheguei a escrever – e uns poucos outros apontam para a organização desse espaço referido por você. A grande variedade de opções, de certa forma, passou a ser um problema para os poetas mais jovens, que acabam aceitando o receituário básico dos programas digitais, ao invés de buscar neles um reforço para suas idéias criativas. Esse problema é análogo ao da retomada da poesia visual, em que a falta de estudo no campo específico da visualidade, associada à gama de possibilidades oferecidas pelos programas gráficos, faz surgir trabalhos totalmente desprovidos de interesse. Por enquanto, ainda predominam a quantidade e a imperícia técnica e tecnológica. Quanto aos norte-americanos, você, ao traçar a analogia entre os beats e a tradição oral brasileira, tocou diretamente o cerne da questão: a oralidade, entre eles, atingiu a faixa de criação letrada, livresca, constituindo-se enquanto uma opção a mais para o público de poesia, digamos, culta. No Brasil, não: nossas elites literárias ainda situam a oralidade num nível secundário em relação à escrita. Sobre o meu CD, no qual trabalho há mais de cinco anos, tudo o que posso a dizer é que acabou se desdobrando em três: um de canções (que compus sozinho, ao violão, ou com parceiros como Maurício Tizumba, Gilvan de Oliveira, Gil Amâncio, Juarez Maciel e Zeca Baleiro, Tião Nunes e até com gente que já não está nem aqui, como Bispo do Rosário, de quem musiquei trechos de umas inscrições bordadas num estandarte), um de radiopoemas e um com a trilha da performance “Um ano entre os humanos”.

Oroboro Começarei com um sintoma. Todos sabem que João Cabral afirmava que não gostava de música e João Donato, não gosta de poesia... O formalismo, a construção rígida, mais cerebral, são características marcantes e importantes para a formação da poesia brasileira. Porém, quando servem de selo de qualidade, de sintoma de erudição, transformam-se em critério exclusivista. Porque existem as formas populares, como as já mencionadas cordel e trova, além da poesia que envolve parte significativa das letras de música, etc. Ou seja: essa margem não atrapalha a formação de um contexto poético sonoro? E mesmo que essa margem tenha motivos para existir, seria o som, em termos de criação poética, menos complexo do que a palavra escrita?

Aleixo Os dois Joões citados por você me parecem bons exemplos de uma tendência bem brasileira de querer deixar cada coisa em seu lugar, incomunicável com as demais coisas/signos. Cabral é contemporâneo das maiores revoluções sonoras de que se tem notícia (serialismo, atonalismo, música concreta) , e isso aparece na poesia dele, de forma espraiada. Ora, simplesmente não há como desconsiderar o extraordinário deslocamento de foco promovido na música de invenção, que deixa de priorizar a melodia e a harmonia em função da exploração timbrística e ritmica, para referir só esses dois parâmetros. Foi o saudoso Sebastião Uchoa Leite quem me chamou atenção para essa contradição em João Cabral: ainda que ele não tenha dado ouvidos à “antimúsica” de seu tempo, ela, de algum modo, se insere na sua sensibilidade de poeta empenhado na desautomatização do olhar do leitor. Quanto a João Donato, vale observar que seu desinteresse por uma poesia “literária” (mesmo quando escrita sob a forma de letra de música”) não o impede de criar admiráveis peças cantadas, para as quais contribui, sem dúvida, a escolha de parceiros que, por seu turno, entregam-se a prazerosos jogos sonoros com as palavras, usando e abusando de monossílabos, interjeições e expressões de origem afro. Note que no caso de Donato, a “solução” passa, necessariamente, pelo trabalho em colaboração. Imaginemos: e se Cabral tivesse tido a chance de desenvolver trabalhos com parceiros musicais (não um Chico Buarque, que, compreensivelmente, apenas cumpriu burocraticamente o que lhe foi pedido quando musicou “Morte e Vida Severina”, mas um músico dado a experimentações técnico-formais), será que ele teria continuado a dizer o que dizia sobre seu descaso pela música? Concluindo: você pergunta o que é mais complexo, em termos de criação poética, se o som ou a palavra escrita. Penso que cada código oferece graus diferentes de complexidade. Para a poesia, tudo significa, todas as possibilidades são relevantes. Que cada poeta que descubra a melhor maneira de levar adiante o seu projeto criativo. Pessoalmente, minha batalha, hoje em dia, é pela ampliação, senão pelo estabelecimento, em bases menos circunstanciais, disso que você chama, com muita propriedade, de “contexto poético sonoro” – o qual não descarta, antes, potencializa os aspectos gráfico-visuais do texto, numa relação isomórfica que atribui dimensão partitural ao signo verbal. No meu entendimento, e sei que você também pensa da mesma forma, um “contexto poético sonoro” é algo que vai além da eventual abertura dos espaços para leituras, recitais e performances e das gravações de CDs de poemas, feitas, com raríssimas exceções, com total imperícia. Temos que estudar muito, pesquisar novas formas de ocupação da “cena contemporânea” – título, aliás, de um excelente livro do ensaísta Renato Cohen, falecido há cerca de dois anos, que fala sobre as simultaneidades e multiplicidades desse espaçotempo em que têm se movido criadores de diversas áreas. Me parece que o grande desafio para os poetas que pretendem trabalhar com outros suportes que não o livro, hoje, é conseguir ocupar esse novo ambiente estético-cultural sem achar, morrendo de culpa, que estão “traindo a verdadeira poesia”, essa que tem cultiva o objeto livro como um fetiche, um objeto de culto.

Oroboro Você integrou a Cia. SeráQuê?, para a qual compôs a trilha sonora do espetáculo Quilombos urbanos, apresentado de 1999 a 2003 em várias cidades brasileiras e no exterior, como Argentina e Alemanha. E com Gil Amâncio, fundou e dirige a Sociedade Lira Eletrônica Black Maria. Fale mais sobre essas experiências.

Aleixo Tem uma parte da minha história com a arte que se inicia em 1998, quando eu me inscrevo num workshop da artista plástica Lygia Pape, em Belo Horizonte, que me serve de estímulo para a retomada do trabalho plástico-visual. É a partir desse encontro com Lygia, com quem conversaria em outras oportunidades, sempre recebendo dela a melhor das atenções, que surgem os trabalhos que vão compor, em 99, a mostra Objetos suspeitos, apresentada em Belo Horizonte, em Mariana e no Castelinho do Flamengo, no Rio. Nas duas primeiras cidades eu apresentei uma performance poético-musical junto com Gil Amâncio. A receptividade foi tão boa que resolvemos desenvolver um trabalho em dupla, que resultou, no ano seguinte, na criação da Sociedade Lira Eletrônica Black Maria – nome que homenageia Thomas Alva Edson, cujo estúdio tinha o nome de Black Maria, e, de tabela, ressalta a idéia de invenção presente no nosso projeto, que mistura poesia falada, cantada e cantofalada com música eletrônica e realização acústica, videopoemas e vídeo ao vivo, dança, performance, arte vestual, afrofuturismo, música concreta e o que pintar, sempre oscilando, propositalmente, entre high-tech e low-tech. Na mesma época, 99, fui convidado por Gil a integrar a Cia SeráQuê?, que ele fundou, em 93, ao lado do bailarino Rui Moreira, ex-grupo Corpo. Fiquei com a SeráQuê, como performer e compositor, até 2003, quando fizemos, em Berlim, a última apresentação de Quilombos urbanos, uma experiência que vivi com muita entrega, muita vontade de aprender, porque era a primeira vez que eu me aproximava do universo da dança. Eu era um performer, um poeta, cantor e compositor dentro de um grupo que tinha artistas de outras, mas era fundamentalmente dedicado à dança. No Quilombos também era forte o uso da eletrônica, e não só pelos músicos, mas pelos bailarinos (Rui dançando num tablado sonorizado é uma imagem inesquecível). De modo que foi uma experiência ao mesmo tempo estimulante e assustadora para mim. Para quem estava habituado a trabalhar sozinho, no máximo com mais uma ou duas pessoas, era algo estranho aquela pletora de gente sempre por perto, sempre dando palpites, cobrando, sugerindo. Meu livro Trívio, de 2001, surgiu, de certa forma, como reação emocional a esse pique frenético em que havia mergulhado, como um esforço de afirmação de individualidade criadora, uma coisa assim. Depois de uma viagem a Coimbra, Portugal, no ano passado, quando estreei a performance Um ano entre os humanos, voltei a trabalhar sozinho ou com convidados eventuais, sem deixar, também, de trabalhar com Gil e os demais parceiros da Sociedade Lira Eletrônica Black Maria, o VJ Tatu Guerra e o DJ e dançarino Rato. Com Gil, fiz, recentemente, a trilha sonora para a primeira animação do Tião Nunes, Antologia mamaluca.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Hoje, às 19h30, na Casa UNA, Belo Horizonte, em mais um desdobramento

da ZIP/Zona de Invenção Poesia &, Ricardo Aleixo apresentará uma
mostra comentada de poemas sonoros.

Os focos principais da sua abordagem serão as obras
...cedidas por Marcelo Sahea, Ricardo Domeneck (em parceria
com o duo Tetine), Manoel Ricardo de Lima, Makely Ka e Ricardo Corona
e as peças especialmente criadas para a ZIP pelos poetas Bruno Brum,
Mônica de Aquino, Mariana Botelho, Kiko Ferreira, Sérgio Fantini
e Thais Guimarães e pelos integrantes do grupo TEXTA, de Maceió.

A Casa UNA fica na rua Aimorés, 1451. Entrada franca.

sábado, 30 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011


ZOONA (ufa! e uau!)

::::::::: um dos momentos::::::::::::::::::

a fala tartamuda das onomatopeias,
escritas nos balões de "Poluição sonora",
intervenção de Eliana Borges.

sexta-feira, 8 de abril de 2011


ZOONA – encontro literário de Curitiba


Encontro reúne durante três dias mais de 35 escritores, poetas, performers e artistas, de diferentes localidades, em homenagem às obras dos escritores Valêncio Xavier e Wilson Bueno.
Mesas-redondas, performances, mostra de vídeo, intervenções, lançamento de livros e publicações, leitura de poesia e prosa (poema ao vivo), exposição documental e lançamento do suplemento literário vagau – edição exclusiva do evento. Essas são as atividades que integram a programação do ZOONA literária, que agitará Curitiba nos dias 15, 16 e 17 de abril.

Incentivado pelo Fundo Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba, com realização da editora Medusa, o evento ZOONA literária acontecerá no Solar do Barão (Rua Carlos Cavalcanti, n. 533), à exceção da mostra de vídeo que terá suas sessões no Paço da Liberdade (Praça Generoso Marques, 189). A curadoria do evento, assinada pelo poeta e editor Cláudio Daniel (SP) e pela poeta e artista visual Joana Corona (PR), tem como referência os trabalhos dos escritores Valêncio Xavier e Wilson Bueno. Uma homenagem que, sobretudo, realizar-se-á com a apresentação de trabalhos, ações e pensamento inventivos, modos de acessar o extraordinário legado composto pelas obras destes autores.

Embora seja um encontro literário, ZOONA transita por diferentes formas expressivas e portanto abrange um público heterogêneo, expandindo-se para outros campos artísticos. Entre os convidados das mesas-redondas estão os escritores Luis Ruffato (SP), Paulo Venturelli (PR), Raquel Stolf (SC), Victor Sosa (México) e Luis Serguilha (Portugal). Documentário, entrevista, videoarte, videopoema e filmes do Valêncio Xavier comporão a mostra de vídeo ZOONA, além de curtas de ficção de diversos diretores. As performances serão de Marcelo Sahea (RS), Ricardo Corona e Eliana Borges (PR). Maiores detalhes sobre a programação do evento estão disponíveis em:

http://www.zoonaencontroliterario.wordpress.com.

“De uns tempos pra cá, tenho percebido um discurso que diz o que é literatura e o diz ocupando o seu centro. Um discurso que, ingênua ou intencionalmente, tem empurrado para a margem autores inventivos como Leminski, Valêncio, Wilson, Karam, Josely, entre outros. E literatura, definitivamente, não se faz com discursos polidos e centralizados. Sequer é coisa para se decifrar e depois conquistar. Em ZOONA, que traz em si a coerência de ser um espaço efêmero e passageiro, com três dias de duração, discutiremos não a margem excludente e o discurso que articula, mas a zona extrema, a zona de invenção que vem sendo habitada por certa literatura contemporânea e que muito nos diz respeito nestes platôs curitibanos”, afirma o poeta Ricardo Corona, coordenador do evento.



Serviço:

Dias 15,16 e 17 de abril

 Mesas-redondas, performances, poema ao vivo e lançamentos: Museu da Gravura Cidade de Curitiba - Solar do Barão - Sala Scabi (Rua Carlos Cavalcanti, n. 533).

 Mostra de vídeo ZOONA: Paço da Liberdade – Sala cinepensamento (Praça Genoroso Marques, 189)

 Exposição apegos: de 16 de março a 17 de abril, Museu da Gravura Cidade de Curitiba (Rua Carlos Cavalcanti, n. 533)



Maiores informações:

http://www.zoonaencontroliterario.wordpress.com

Contato:

editoramedusa@hotmail.com



ZOONA – evento literário de Curitiba

Realização: Medusa Editora e Produtora

www.editoramedusa.com.br

Curadoria: Cláudio Daniel e Joana Corona

Produção: Meio-Fio Cultural



ZOONA

encontro literário de Curitiba





PROGRAMAÇÃO GERAL



SEXTA - 15/04

10h - mostra de vídeo

O mistério da japonesa (2005), de Beto Carminatti e Pedro Merege

Repontual (2007), de Adriano Esturilho e Henrique Faria

Generoso (2007), de Eduardo Baggio

Mar paraguayo (2004), de Nivaldo Lopes

só tenho um norte (2007), de júlia studart, manoel ricardo de lima, demétrio panarotto e alexandre veras



14h30 - mesa-redonda: Escritas – contaminações entre literatura e artes visuais

Debatedores: Joana Corona (Curitiba-PR), Raquel Stolf (Florianópolis-SC) e Manoel Ricardo de Lima (Rio de Janeiro-RJ)

Mediadora: Eliana Borges (Curitiba-PR)



17h - mostra de vídeo

Entrevista com Valêncio Xavier e com Wilson Bueno. Projeto Encontros: Memória da Literatura Paranaense (2004), coordenado por Silvanah Santos



18h15 - breve depoimento de Luiz Carlos Pinto Bueno



19h - performance: Pletórax

Marcelo Sahea



20h - mesa-redonda: Poéticas da simulação e do dilatamento

Debatedores: Ricardo Corona (Curitiba-PR), Victor Sosa (México) e Claudio Daniel (São Paulo-SP)

Mediador: Ricardo Pedrosa Alves (Curitiba-PR)



22h - lançamentos e poema ao vivo

lançamento do suplemento literário vagau

lançamento dos livros e publicações: ZOA'E, de Luis Serguilha, crostácea, de Joana Corona, musga, de Mário Domingues, Poesiaénão, de Estrela Leminski, oAtlas, de Eliana Borges, Rostos e rastros do século XX, de Victor Sosa, os anomenos, de Manoel Ricardo de Lima, Poemas de 3000 anos, de Emerson Pereti e lab #2 - laboratório de crítica de arte.

poema ao vivo: Andréia Carvalho, Adriano Esturilho, Francine Canto, Luiz Felipe Leprevost, Vanessa Rodrigues, Manoel Ricardo de Lima e Luiz Carlos Pinto Bueno (lendo textos de Wilson Bueno).



intervenção: Poluição sonora

Eliana Borges



SÁBADO - 16/04

11h - mostra de vídeo / sessão Valêncio Xavier

O pão negro (1994), de Valêncio Xavier

Carta ao signore Fellini (1979), de Valêncio Xavier



14h30 - mesa-redonda: A prosa do mínimo

Debatedores: Luci Collin (Curitiba-PR), Carlos Henrique Schroeder (Jaraguá do Sul-SC) e Luis Serguilha (Portugal)

Mediadora: Assionara Souza (Curitiba-PR)



17h - mesa-redonda: A prosa de arte e o subespaço urbano

Debatedores: Paulo Sandrini (Curitiba-PR) e Luiz Ruffato (São Paulo-SP)

Mediador: Mário Domingues (Curitiba-PR)



19h30 - performance: tsantsa

Ricardo Corona e Eliana Borges



20h30 - mesa-redonda: Fronteiras linguísticas, em Wilson Bueno, e de linguagens, em Valêncio Xavier

Debatedores: Joca Terron (São Paulo-SP) e Paulo Venturelli (Curitiba-PR)

Mediadora: Joana Corona (Curitiba-PR)



23h - lançamentos e poema ao vivo

lançamentos dos livros e revistas: arquitetura da luz, de Francine Canto, barato, de Ricardo Pedrosa Alves, Eita! (n. 5, dez. 2010) - revista de literatura, Tatuí Crítica de Arte 11, Antônio Maria - crônicas de escritores contemporâneos do Recife, Os justos, de Cristhiano Aguiar, ocupado, de Adriano Esturilho, manual de puts sem pesares, de Luiz Felipe Leprevost.

poema ao vivo: Cristhiano Aguiar, Emerson Pereti, Mário Domingues e Denis Nunes (sound-design), Alexandre França, Sabrina Lopes, Estrela Leminski, Victor Sosa e Luis Serguilha.



DOMINGO - 17/04

11h - mostra de vídeo

preamar (2010), de Joana Corona

FORA [DO AR] - Kit para terceiros socorros (2003-2004), de Raquel Stolf

zero-sufur, de Mário Domingues

pulso descalço, de Glauco Pessoa

medo (fear) (2009), de Marcelo Sahea



14h30 - mesa-redonda: A autoridade do original e a autoria da tradução

Debatedoras: Sabrina Lopes (Curitiba-PR) e Virna Teixeira (São Paulo-SP)

Mediador: Claudio Daniel (São Paulo-SP)



17h - poema ao vivo: Claudio Daniel, Virna Teixeira, Edson Falcão, Leonarda Glück, Rodrigo Madeira, Ricardo Pedrosa Alves, Fernando Karl e Ricardo Pozzo.



A exposição apegos faz parte do ZOONA literária, é uma exposição documental com objetos e manuscritos de Valêncio Xavier e Wilson Bueno, que está no Museu da Gravura Cidade de Curitiba, Solar do Barão, do dia 16 de março a 17 de abril de 2011.