segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

2010: DUAS OFICINAS EM CURITIBA

Já estão abertas as inscrições para as oficinas de análise e criação literária.

Informações: 3321 3317

São oficinas de poesia, dramaturgia e literatura com vários escritores:

Paulo Sandrini, Mônica Berger, Glória Kirinus, Amarildo Anzolin, Assionara Souza, Otto Leopoldo Winck, Jane Sprenger Bodnar, Simone Kobachk, Ricardo Corona, Mário Domingues e Paulo Afonso Castro.

E com vários conceitos.

As minhas duas são de poesia.

Uma está relacionada à poesia falada e a outra de poesia e performance. Mas num determinado momento ambas as oficinas vão se "encontrar".

Veja abaixo as propostas das minhas oficinas.

FAZER PARA A VOZ
Oficina de estudo e criação poética
Ministrante: Ricardo Corona

A oficina propõe como objeto de análise, leitura, criação e gravação a poesia feita para a voz. Um dos objetivos será identificar uma linha “proto-fala” dentro da nossa tradição brasileira. Após esse recorte de investigação poética, passaremos à experiência de criação do próprio poema e a sua apresentação ao vivo. Os poemas criados pelos participantes também serão selecionados com objetivo de gravação em estúdio.


POESIA EM PERFORMANCE
Oficina de estudo e criação
Ministrante: Ricardo Corona

A performance é uma prática artística habitualmente relacionada às artes visuais, mas cuja ação se estende para outras categorias artísticas – teatro, música, dança, poesia, artes visuais – e, justamente por isso, pela dificuldade de perceber o seu pertencimento, permite também o abandono dessas categorias, sem negá-las, mas relevando a sua qualidade de transgênero.
A questão central dessa oficina será o lugar do corpo do poema no espaço da performance. Uma vez que a singularidade da performance abre caminho para uma relação de transcendência, de poema e corpo, na qualidade que um objeto tem de exceder as fronteiras da própria classe ou do próprio âmbito. Ao término do curso será feita uma apresentação pública das performances.

sábado, 16 de janeiro de 2010

JIM MORRISON



















Bater asas
Abater
Os ventos fortes do Karma

Sereias

Risos & vozes juvenis
na montanha

...

Entidades

o Negro, África

Tatuagem

olhos cheios de tempo



tradução Ricardo Corona

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

RÁDIO BLÁ

















Apesar da correria que foi o ano que já dormiu, deu tempo para participar de um programa de rádio muito bacana chamado Perfil Literário, da Rádio Unesp FM de São Paulo.
O programa tem um ano de existência e já acumula uma centena de ótimas entrevistas.
Gostei em especial da proposta de entrevistarem artistas de todo tipo; de Nuno Ramos à Luiz Ruffato, por exemplo.
O programa é conduzido pelo Oscar D'Ambrosio, coordenador de imprensa da Unesp e uma figura muito simpática que conheci ao telefone...
Para quem quiser conferir a minha entrevista, procura a do número 333, depois de clicar
aqui

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

ARTURO CARRERA I

A editorial Mansalva (Argentina) acaba de publicar um livro de ensaios de Arturo Carrera. No breve texto que o autor fez circular (reproduzido abaixo), percebe-se que não são ensaios comuns, mas murmurados. Quanto mais leio Arturo Carrera mais sinto o “agora” bonnefoyiano, aquele aludido como “presença” (Blanchot), um algo que não tem nome, onde nada se constitui, nem mesmo o nada, senão o “improvável” no lugar da “economia geral do ser”. Murmure Arturo. Murmure.

...

“Estive ‘murmurando’ esses textos em distintos âmbitos – apresentações de livros, alguma que outra conferência, alguma que outra intervenção nos chamados congressos de literatura. Enfim... Não são fatos, não são autobiográficos, são apenas sensações. Joseph Brodsky disse uma vez que as biografias dos poetas estão presentes nos sons que fazem. Sendo assim, esta é uma provável biografia e assim o fiz constar nas datas que iniciam cada “ensaio”. Porque tenho considerado todos estes rascunhos meus como parte desses ruídos estranhos e rítmicos: uma voz. O sujeito e personagem dos textos não sou eu, mas o murmúrio. Aquele murmúrio que não é outra coisa senão um desafio humano diante da morte. Uma constatação serena, insidiosa e apenas perceptível do que somos (nossa vida), mas na instância da leitura e escrita (nossa grafia improvável).” (Arturo Carrera)

Info: http://www.mansalva.com.ar/home.php

ARTURO CARRERA II

O Instituto Internacional de Literatura Iberoamericana, de Pittsburgh (EEUU) publicará em janeiro de 2010 um livro que reúne uma antologia poética de Arturo Carrera e uma seleta de ensaios críticos produzidos por estudiosos da obra do autor argentino. Do Brasil, participam Joca Wolff, Raúl Antelo e Ricardo Corona.
O volume integra a coleção Cornejo Polar e foi organizado e editado por Nancy Fernández e Juan Duchesne Winter.




Mais informações http://vanguardiaytradicion.blogspot.com/2009/12/sonia-budassi-y-nancy-fernandez.html

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

AOS QUE SEMPRE ME PERGUNTAM SOBRE OROBORO E MEDUSA, TAÍ:

De como morder o próprio rabo

Jogar uma mulher de cabelos compridos na hélice de um helicóptero é baba. Furar a jugular de um aposentado é mole. São crimes comuns que rendem quando muito uma notícia. E o som da sirene da polícia. Quero ver é matar uma revista. Sempre que penso em revistas me vêm à mente dois tipos de assassinos. O sério e o serial. O primeiro pertence ao mainstream e o outro ao mundo outsider. Fazer uma revista independente é um tipo de assassinato que não compete ao assassino que se move pelos meandros do mercado. Veja bem: eu disse fazer (poiésis), cujo significado remonta a idéia de poesia. A palavra poesia vem do grego, poesis, substantivo derivado do verbo poieô que indica a ação de fazer. Poeta, conseqüentemente, significa aquele que faz (poiétes). Quero dizer da íntima relação que o ato de fazer uma revista independente tem com as acepções do termo poieô: fabricar, confeccionar, criar, produzir, fazer nascer, causar, buscar, investigar, fazer por si, fazer segundo seu gosto, criar por si, fazer a si mesmo, apreciar e julgar. Por isso não é nada fácil matar uma revista independente. Aí é que entra a persona do serial. Conforme Henry Miller, todo poeta é um assassino em potencial. Disse isso não sem aquele sorrisinho na cara. E se o poeta é um assassino então até as revistas devem morrer. Mas revistas também são feitas por artistas plásticos. Mas artistas plásticos são assassinos químicos. Depois de matar, eles plastificam a vítima. Artistas plásticos também praticam o verbo poieô, aquele que indica a ação de fazer. E o sério? O outro assassino, das revistas dependentes do mercado? Este mata em grande escala. Mata toda a cadeia da comunicação que se inicia nele mesmo e chega ao leitor, esse pobre escrevinhador de cartas. É o autocídio voluntarioso. Mas o crime mais sério do Sério é a publicidade. Ou seja, trata-se de um assassino sério que vende corpos frescos. Enquanto o assassino da revista independente, por não pertencer ao mercado, não vende corpos, apenas os exibe. Este assassino de revistas independentes compactua com a lógica do serial killer. Por opção e etimologia nas mãos desse exímio e controlado matador, a vida da revista é uma questão de série. Mas diferente do assassino sério, anexado ao mainstream, o serial killer tem número e edição para acabar porque planejou uma obra com começo, meio e fim. E por isso goza a morte de sua revista. E não há anúncio ou número de vendagens estratosférico que valham mais do que o prazer de matar a própria revista. Só assim poderá voltar a morder o próprio rabo. E etc.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

POESIA DAS AMÉRICAS EM LIVRO DE CHARLES A. PERRONE

Charles A. Perrone, o norte-americano mais brasileiro que conheço acaba de publicar o livro Brazil, Lyric, and the Americas, um estudo arrojado das relações entre a poesia brasileira contemporânea e as Américas. Poemas e poetas multi-americanos são chamados ao diálogo cujo enfoque é o da relação. A visão crítica de Charles A. Perrone, comprovada em outros livros (Letras e letras da MPB, por exemplo), procura sempre expandir os próprios limites, sejam eles quais forem. Vale conferir.


Brazil, Lyric, and the Americas
Charles A. Perrone

"This is Perrone at his most brilliant. Erudite but accessible, thorough but playful: Brazil, Lyric, and the Americas is the latest contribution by the most knowledgeable U.S.-based scholar of the Brazilian lyric."--Severino Joao Albuquerque, University of Wisconsin"Perrone retraces the dialogue of the Brazilian lyric with the poetry of the Americas in the generous spirit that the poets' utopia of solidarity will serve as a counterpoint to the harsher side of globalization."--Luiza Moreira, Binghamton UniversityIn this highly original volume, Charles Perrone explores how recent Brazilian lyric engages with its counterparts throughout the Western Hemisphere in an increasingly globalized world. This pioneering, tour-de-force study focuses on the years from 1985 to the present and examines poetic output--from song and visual poetry to discursive verse--across a range of media. At the core of Perrone's work are in-depth examinations of five phenomena: the use of the English language and the reception of American poetry in Brazil; representations and engagements with U.S. culture, especially with respect to film and popular music; epic poems of hemispheric solidarity; contemporary dialogues between Brazilian and Spanish American poets; and the innovative musical, lyrical, and commercially successful work that evolved from the 1960s movement Tropicalia.Charles A. Perrone is professor of Portuguese and Luso-Brazilian literature and culture at the University of Florida.

Brazil, Lyric, and the Americas
Details: 264 pages 6 x 9 Cloth: $69.95 ISBN 13: 978-0-8130-3421-8 ISBN 10: 0-9130-3421-3 Pubdate: 2/21/2010
http://www.clas.ufl.edu/bookbeat/200912_bookbeat.html


Meu exemplar ainda não chegou e por isso não sei exatamente quais poemas e poetas Charles A. Perrone acabou por selecionar. Quando o livro chegar, prometo postar alguns poemas. Por enquanto, eis o meu:



AGUAFUERTE PORTEÑA


América,
ao norte e sob um sol falso,
teus filhos se afastam
do aroma dos prados.

Os mesmos filhos
que atuaram contra a desobediência civil
de Thoreau
e fazem da democracia
um inimigo invisível.

Os mesmos
que têm a melanina impermista
e detestam semente
de melancia.

São eles, América,
os benevolentes
que cobram somente os juros
da dívida do terceiro mundo.

São eles, América,
os beneficiários
que cumprem religiosamente a sua parte
na permuta de cifra bélica.

Os mesmos
que sacodem bandeiras
quando tropas ultrapassam fronteiras
e nutrem
um orgulho cívico
para cada medalha espetada no peito
das baixas
devolvidas à vida civil.
América, são eles,
os mesmos de sempre,
que, a cada estação,
reimprimem a cicatriz neo não
e reorganizam etnias
em açougues.
São eles, América,
os adeptos da assepsia
que os deixa menos imunes
ao terror químico.

São eles, América,
os jogadores de cassino
que inflam suas bolsas escrotais
com o sobe-e-desce da Nasdaq
– o mundo que se foda
com seus bolsões de pobreza.
São eles,
sim, são eles, América,
os mesmos
que têm a maior indústria de entretenimento
do planeta
e representam grande parte da tristeza
existente neste
mundo.

Não, América,
não são os que Walt Whitman separou
feito as folhas da relva
e os fez americanos.

Os americanos estão dentro da América
– ao sul, ao norte e ao centro –,
feito o anagrama
“Iracema”.

Corpo sutil (Iluminuras, 2005, p. 74, 75 e 77)

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amphibia

Esta semana recebi a ótima notícia de que o meu livro Amphibia já estava no site da editora portuguesa Cosmorama (http://catalogo-cosmorama.blogspot.com/). Ainda não peguei em mãos o livrinho que mostrará parte da minha poesia (pois reúne num só volume Cinemaginário e Corpo sutil) para o público português e estou entusiasmadíssimo com a ideia. Abaixo, pra celebrar, um poema e a apresentação do poeta uruguaio-mexicano Víctor Sosa, parte espanhola das três línguas que compõem Amphibia.




















VENTOS E UMA ALUCINAÇÃO


1.
sol tórrido no
aljazar

(lascas de zinco refletindo)

sol batendo
no sal

2.
das costas
do homem na barcaça
— e deu-se à estampa

(um sopro quente passa)

um caligrama na asa
do anjo
aprendiz da chuva

3.
rubricando, rebatendo
no arco-íris riso
da híbrida holografia

(do solo sobe um hálito quente)

espumas ainda agonizam
e novamente
o mar traz à margem sua franja

4.
atrás das pálpebras
o olho dá forma ao sol
: bola vermelha

(um vento mantra passa)

a íris fosforesce
aureolando as pupilas em brasa

5.
no cine Céu
a sessão inicia pelo fim

(o rubro horizonte nubla de repente)

barbatanas no céu anfíbio
guelras no céu íntimo

6.
hojes mais longínquos
lembram
ontens ancestrais

(um peixe roça a pele da pedra)

há uma escritura definitiva
nas estrelas
sílabas

7.
: a gula de luz
de uma galáxia canibal

(a lua finge mas já reflete sóis)

há anos-luz daqui
Andrômeda é a esfinge
da via-láctea









Anfíbios sutis
por Víctor Sosa


Ricardo Corona é um artista completo. Poeta, sim, mas um poeta que sabe como integrar a imagem escrita à imagem sonora, o ritmo à ideia, o necessário substrato oral e corporal a um claro conceito. Suor e sintaxe, fôlego e sólido fundamento, estrutura que flui: pedra evaporada em sons. Este equilíbrio entre o etéreo e o denso, entre o melódico e o rítmico, entre o que ruge e o que sussurra, é o atributo de uma sensibilidade poética − insisto − completa e − sem dúvida − singular. Mas como Corona alcança esta singularidade expressiva? Escutando. Ouvindo com atenção essa tradição − a sua, a nossa, a de muitos − chamada modernidade. Porque todo poeta é um acúmulo de vozes, de influxos, de permanentes ou efêmeros feitiços que ressoam, consonam, reverberam nessa caixa de ressonância com nome próprio que, neste caso, se chama Ricardo Corona. Nela se entrecruzam e se integram (ou seja: se fazem outros na hibridização) alentos como Pound, William Carlos Williams, Leminski, Kurt Schwitters, Hugo Ball, Lautréamont, Ginsberg, Jim Morrison, Mallarmé, Jerome Rothenberg ou Haroldo de Campos. Mas a modernidade e seus representantes também se formam de outras tradições e apropriações culturais, feito o dadá com os cantos tribais, Pound com a poesia chinesa antiga, Rothenberg com as poéticas “primitivas” da Nova Guiné, e tantos outros artistas − até chegar a Corona, que também se alimenta de cantos dos índios yanomami ou dos suruí de Rondônia, bem como dos ritmos próprios das tradições afro-brasileiras. Assimila-se os alimentos com seus diferentes nutrientes até fazer parte de um novo organismo gestor, de um novo recipiente em atenta reciprocidade com aquilo que recebe. O poeta recebe e dá, mas nessa dialética nutritiva se funda sua voz, sua sintaxe peculiar, seus acentos e silêncios − isso que é chamado estilo e que é, sobretudo, respiração personalizada na linguagem. A respiração de Ricardo Corona − que nasce da sua experiência corporal com a linguagem − é reconhecível por sua coerência. Uma coerência nascida, como já disse, do equilíbrio, da emoção − sempre necessária − aquilatada na contenção e ritmo, do assombro diante do mundo que vira palavra. Em Cinemaginário (1999) já vemos essa coerência, essencial, em que confluem mundo e língua: “há uma escritura definitiva / nas estrelas / sílabas”. O universo como livro a decifrar (em correspondência com Baudelaire), mas também como meditação mântrica para além de toda explicação logocêntrica: “um vento mantra passa”, e esse vento funde som com sentido, meditação com reflexão, corpo com intelecto, natureza com cultura. Corona desenha o mantra no verso e vemos (ouvimos) esse vento-verso-mantra nas ondulações da linguagem. Concentrada sintaxe poundiana, mas também, sempre, celebração nessa “poesia // na farra na liga // das línguas!”. Celebração amorosa onde o amor se reúne num espaço análogo, abrangente, igualmente grandioso: “e o amor / não é maior / nem menor / que o mar”. A sabedoria de Corona está em aceitar essa pulsação de amor e mar, assim como na consciência da escritura pessoal que se faz e desfaz no mar da linguagem, nesse fluxo de influências imantatórias, nessa constante metamorfose da poesia: “Ondas deslizantes / redesenham / onde outras ondas ainda / desredesenharão, / fluindo / no fluxo / da influência”. O mundo em constante remodelação (mais natural que divino) e a escritura em sintonia com esse fluxo. Tudo desenha uma mágica causalidade como quando “a chuva desce / pelo cheiro / a terra agradece” e “como as pedras duras / um dia acordam dunas”. Corpo sutil (2005) prossegue nesta pesquisa sobre a linguagem e o mundo, e também sobre esse delicado equilíbrio − corda tensa − por onde Ricardo Corona avança. E começa com uma referência à linguagem zaum do poeta russo Khlébnikov, que deve ser entendida como uma piscadela para o leitor, uma maneira de enfatizar não somente uma escritura preocupada com sua sonoridade, mas também uma leitura que deve ser feita com uma atitude participativa e não passivamente; Corona exige leitores cúmplices que ouçam “o ideograma de Confúcio (...)/ a escultura sonora de Zappa / o sol dos sacerdotes do Egito (...)/ a bondade do bonsai / a estampa de Átila (...)/ o Rio de João Gilberto (...)/ o sachê perfumado do Buda...” e que olhem também, simultaneamente, aquilo que ouvem. Porque a poesia é uma coisa para ver e ouvir, e é algo que se faz com todo o corpo (sutil). Poesia-palimpsesto onde vemos (ouvimos) um dia de verão com as roupas que se agitam no varal e, por sua vez, um ônibus que voa pelos ares, uma mesquita que explode, um menino palestino morto; realidades simultâneas vistas-sentidas-ouvidas pela televisão, o cinema, os jornais de cada dia. Massa de imagens e carne humana, de palavras que brincam com corpos: palimpsesto de vida. Palimpsesto e anfíbios. Zona líquida. “As palavras são peixes dentro d’água” e vão movendo-se (“tá viva a letra”) “no fluxo vivo sem capítulos, / contra a métrica das ondas”. O corpo sutil de Corona é aquoso, não por debilidade, mas por profundidade, por densidade ancestral, por ser anfíbio: “menino-peixe, meio fauno / meio deus marinho / que Iemanjá devolve ao mar”. Também, “uma ninfa montada numa égua d’água” atravessa o corpo sutil desse livro: “livro feito de água”, livro perfeito “porque não se pode / guardar”, como o rio-livro de Heráclito, o livro-peixe de Corona não quer ser eterno, quer se diversificar na densa unidade “no lugar que não se respira / ar”. Em “Estilo da boca”, também anfíbia e dialógica, irrompe a oralidade de Jardelina da Silva e com ela a poesia de cada dia, a gargalhada, a primeira pessoa do singular, a que leva o mundo inteiro dentro de si. Corona se deixa penetrar por esse mundo, por essa fala, porque “tudo que eu falo é o planeta”, e olha de soslaio e escuta os múltiplos sentidos e olha para dentro e olha para fora e abandona a velha poesia vertebrada. Corona transforma-se num invertebrado da língua: “bate n’água / rebate n’alma”, e, com o ouvido atento, faz-se tambor, coração-tambor: bomba. Faz-se tupi na fala percussiva: “ondéquetão / ondéquetá / ondéquetão / ondéquetá” e torna-se somali e, com os cantos dos índios suruí, espírito das águas. Naturalmente, a condição do poeta é ser muitos, e Ricardo Corona flui em sua multiplicidade e metamorfose das formas. Contra o fragmento, cria fractais; contra os buracos negros, cria música; contra o caos, cria silêncios límpidos, estruturas cristalinas e aquosas, poemas-anfíbios. Como diz em Corpo sutil: “contradizer até o fim (...)/ boca maldita não é beata / língua má não cria fungo”. Contradizer o sentido comum, contradizer o politicamente correto, contradizer Caetano Veloso, contradizer a si mesmo: “escrevo para não ser chamado de poeta”, porque “quem me inventou / criou o seu avesso”. Sem dúvida: “a poesia não cabe numa vida”; sem dúvida: a poesia é um longo processo de desobediência; sem dúvida: “a posição da poesia é oposição”. O poeta Ricardo Corona está fazendo um verdadeiro e profundo trabalho de oposição com sua poesia, e o faz com inteligência, com sensibilidade e com um sincero compromisso ético com o mundo e com a linguagem. Integridade, tão sutil quanto corporal, a que devemos agradecer com nossa leitura cúmplice.

Cidade do México, dezembro de 2008.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

TORTOGRAFIA

O trabalhos abaixo fazem parte do livro Tortografia (meu e da Eliana e editado pela Iluminuras, 2003). São trabalhos-pausas da nossa conversa infinita sobre arte. Esse livro representa isso. Nós fizemos trabalhos que contêm poesia e artes plásticas e/ou a partir do que estas nos serviram e na medida em que puderam dilatar-se para receber outras "falas" do nosso processo de criação. Um espaço de confluência que resultou em coisas que gostamos de chamar apenas "trabalhos", com desdobramentos da poesia para o universo das artes plásticas e destas para o campo poético e com intensidades variáveis. Nós buscamos um espaço que também é o da performance, em que as linguagens se abrem para o despaisamento, para o não-ser, para além da categoria. A seguir, os trabalhos 'biografias', 'micro', 'exemplar' e 'macro'.


























quinta-feira, 8 de outubro de 2009

DOIS POEMAS DE GARY SNYDER


ONCE ONLY


almost at the equator
almost at the equinox
exactly at midnight
from a ship
the full

moon

in the center of the sky


Sappa Creek near Singapore
March 1958

(from THE BACK COUNTRY)


UMA VEZ SÓ


quase no equador
quase no equinócio
exatamente à meia-noite
de um navio
a lua

cheia

no centro do céu



ARTS COUNCILS


Because there is no art
There are artists

Because there are no artists
We need money

Because there is no money
We give

Because there is no we
There is art

(from Axe Handles)



CONSELHOS DE ARTES


Porque não há arte
Há artistas

Porque não há artistas
Precisamos de dinheiro

Porque não há dinheiro
Nós damos

Porque não há nós
Há arte


Traduções Ricardo Corona

terça-feira, 6 de outubro de 2009

NEM BEATLES NEM NINGUÉM


UM POEMA

CÓCEGAS

ao Cauê



encostamos nossas barrigas
e rimos ouvindo o ruído
das pedras do saber
acumuladas no estômago

umbigo com umbigo
havia o dentro
(e um fora centrípeto)

o rumor no ventre
o vômito ao mestre
o cuspe ao ídolo

sem afastar nossas barrigas
com as pedras do saber
acumuladas no estômago
rimos do gozo desse rumor

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AS VIOLAS DE BOLSO DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

William Carlos Williams (1883-1963) é um dos poetas norte-americanos de minha preferência. Quase toda a sua poesia foi muito bem traduzida por José Paulo Paes. Mas creio que a edição (Companhia das Letras) está esgotada, não sei. O fato é que está um tanto sumida das rodas atuais. E Williams é imprescindível.
Para quem não sabe, o poeta era médico e passou a maior parte da sua vida na pequena cidade de Rutherford/New Jersey, na costa leste dos EUA, exercendo a sua profissão e fazendo isso, principalmente, para as pessoas mais necessitadas.
Como poeta, um “artesão”, na definição poundiana e começou a escrever sob a influência do movimento imagista – grupo de poetas ingleses e americanos liderados justamente por Pound e que levaram às últimas conseqüências a construção/captação da imagem do poema.
Se os principais poetas da época – Ezra Pound, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Mariane Moore e outros – buscavam empreender grandes projetos (no sentido cosmopolita que se possa dar a isso) para as suas poéticas, inclusive recheando-as com necessárias citações bilíngües (vide Pound na pluraridade de referências nos Cantos, mas sob a perspectiva de que também articulava para fazer frente à lacuna deixada pela Divina Comédia, de Dante...), Williams elaborava a sua poesia com lances do cotidiano, coisas mínimas: um vaso de flores, o gato, a cabeça de bacalhau, as ameixas secas, o carrinho de mão vermelho, a árvore sem folhas, a chaminé amarela etc. Uma poesia escrita de modo particular e bem próximo do que o próprio poeta sinalizara em “The Poem”: made of particulars, wasps, a gentian – something immediate, open scissors, a lady’s eyes (...).
Por outro lado, Williams engendrou um projeto poético que pode parecer simples, mas se isso for visto como uma simplicidade oriental, ou seja, simples sem facilitação. A imagem (como no haicai) põe em funcionamento a sensibilidade sobre as coisas mínimas para um “retorno às coisas”, e aproximando ao máximo os ritmos da poesia aos da fala cotidiana.
Williams trouxe para a literatura essa "fala" inconfundível e soube “descobrir o universal no particular” em flashes precisos, enxutos, cheios de sabor, humor e surpresa, impondo um ritmo do “dizer”. Mas um dizer que mostra o assombro das coisas como elas são: “no ideas but in things” (não idéias, mas coisas).



THIS IS JUST TO SAY

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold


ISTO É SÓ PRA TE DIZER

Comi
as ameixas
que estavam
na geladeira

e que
provavelmente
você reservava
pro café da manhã

desculpe-me
estavam saborosas
bem doces
e bem frias


A SORT OF A SONG

Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.

- through metaphor to reconcile
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in things) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.

(from THE WEDGE, 1944)


UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO

Que a serpente espere sob
suas ervas daninhas
e que a escrita
se faça de palavras, lentas e vivas, rápidas
no golpe, quietas na tocaia,
atentas.

- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor. (Não idéias,
mas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.


THE POEM

It’s all in
the sound. A song.
Seldom a song. It should

be a song - made of
particulars, wasps,
a gentian - something
immediate, open

scissors, a lady’s
eyes - waking
centrifugal, centripetal

(from THE WEDGE, 1944)


O POEMA

Tudo está
no som. Na canção.
Na rara canção. Melhor

que seja uma canção – feita de
minúcias, vespas,
uma genciana – algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de senhora – desperta
centrífuga, centrípeta


Tradução Ricardo Corona

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Poesia e amigos I

De vez em quando e sem muito explicar postarei algumas fotos de encontros bacanas. Esse foi no Rio quando lancei 'Corpo sutil' e Eliana Borges abriu sua exposição 'carto+grafias (subjetivas)'. Antes do lançamento e da abertura da exposição apresentei a performance 'tavivaaletra', na qual tive a honra da participação especialíssima dos poetas e amigos Antonio Cicero e Luiz Felipe Leprevost (ao lado). Por lá passou também Claudia Roquette-Pinto, poeta que admiro muito.

















quinta-feira, 27 de agosto de 2009

NOMOS NA CAIXA CULTURAL!

andei meio sumidaço por motivos mil mas agora está na hora de dizer-mostrar neste zaúm algumas imagens das três noites de ação do NOMOS*performance no teatro da caixa cultural nos dias 18, 19 e 20. a emissora rtve esteve lá e fez uma matéria supimpa (veja aqui: http://www.rtve.pr.gov.br/modules/debaser/player.php?id=1632). os caras foram gente fina mesmo, pois foram lá à tarde para fazer a matéria durante o ensaio mas não deu certo e esperaram rolar toda a sessão para só depois, no final da noite, fazer a entrevista. é que estávamos pilhados e não deu para ser diferente. e a matéria ficou em cima! ponto pra rtve...

Abaixo, a ação Soneto serial, com todos nós: Paulo Demarchi, Mário Carta, Eliana Borges e Ricardo Corona. Simplesmente 'destruímos' um soneto no espaço da performance.


Na ação Ferreiro músico, de Mário Carta (concepção) e minha (desenvolvimento). Ele concebeu e fez a edição do poema que escrevi especialmente para a bateria. Bater e provocar sílabas-sons foi algo incrível de se fazer. Adorei, Mário!
Mário Carta e Eliana Borges numa das ações mais lindas de Nomos. Chama-se Afecto. Deleuze, Guattari, Lévinas, Bubber e toda a filosofia que adoramos está nela. E muito, muito mais... Concepção de Eliana e desenvolvimento de ambos.

nomos tve

http://www.rtve.pr.gov.br/modules/debaser/player.php?id=1632

terça-feira, 11 de agosto de 2009

NOMOS performance


NOMOS performance

dias 18, 19 e 20 estaremos 'agindo' no teatro da caixa (curitiba), sempre às 20h.


NOMOS é eliana borges (artes visuais), mário carta (música), paulo demarchi (música) e ricardo corona (poesia sonora), artistas desde muito tempo envolvidos com a performance em suas áreas, desta vez, sob a direção de palco de giovana de salles (artes cênicas), reuniram-se para apresentar uma sessão de performances que leva o nome NOMOS.

as ações são:


/

corredor polonês
instalação

no lugar que não se respira
(concepção: ricardo corona e eliana borges)
ação: eliana borges e ricardo corona

soneto serial
(concepção: ricardo corona - desenvolvimento: coletivo)
ação: coletiva

música nº 1 e nº 2
(composição: paulo demarchi)
ação: paulo demarchi

afecto
(concepção: eliana borges - composição: mario carta)
ação: eliana borges e mario carta

ferreiro músico
(concepção: mario carta - desenvolvimento: ricardo corona)
ação: ricardo corona

foot prints
(sobre o texto de gerhard stäbler)
ação: paulo demarchi

isso hã
(concepção: eliana borges, giovana de salles e paulo demarchi -
desenvolvimento: paulo demarchi e mario carta)
ação: mario carta, paulo demarchi etc

posse do sol
(concepção: eliana borges)
ação coletiva

caixa rústica
(concepção e composição: mario carta)
ação coletiva

/
créditos:


direção de palco, luz e figurino
giovana salles

poemas
ricardo corona

composição musical
paulo demarchi
mario carta

eletrônicos, programação e instrumentos
mario carta

instalações e vídeo
eliana borges

técnico de imagem e áudio
alexandre rogoski

produção
medusa

/

serviço:
o que é: performance
título: NOMOS
onde é: teatro da caixa, dias 18 (terça), 19 (quarta) e 20 (quinta) de agosto/2009
horário: da 20h00 às 21h00
onde fica: Rua Conselheiro Laurindo, 280 – Centro – Curitiba (PR)

ENTRADA FRANCA

Patrocínio:
CAIXA CULTURAL CURITIBA
Tel. (41) 2118 5114
www.caixa.gov.br/caixacultural

terça-feira, 21 de julho de 2009

Allen Ginsberg








UM SUPERMERCADO DA CALIFÓRNIA



Estive pensando em você essa noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelo beco debaixo das árvores com uma tímida dor de cabeça e olhando a lua cheia.
Em meu esfomeado cansaço, fazendo compras na imaginação, entrei no supermercado de fruta de néon, sonhando com suas listagens!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras comprando à noite! Corredores cheios de maridos! Esposas nos abacates, bebês nos tomates! — e você, Garcia Lorca, o que estava fazendo ali perto das melancias?

Vi você, Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, mexendo nas carnes do refrigerador e flertando com os meninos vendedores.
Ouvi você perguntar a cada um deles: Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Você é meu anjo?
Vaguei entre pilhas brilhantes de latas seguindo você e sendo seguido na minha imaginação pelo segurança da loja.
Percorremos os largos corredores, juntos em nossas solitárias fantasias, provando alcachofras de gosto exótico, cada delícia congelada sem nunca passar pelo caixa.
Para onde vamos, Walt Witman? As portas se fecham em uma hora. Qual o caminho que sua barba hoje indica?
(Toco em seu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e me sinto absurdo.)
Passearemos a noite toda nessas ruas solitárias? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagadas nas casas, ambos estaremos sós.
Andaremos à toa e sonharemos com a hoje perdida América do amor, depois passaremos por automóveis azuis no estacionamento a caminho de nossa cabana silenciosa?
Ah, querido pai de barbas grisalhas, velho e solitário mestre da coragem, qual América era a sua quando Caronte deixou de empurrar o seu barco e você desceu na margem esfumaçada e ficou assistindo o barco desaparecer nas negras águas do Letes?

Allen Ginsberg
Berkeley, 1955
Tradução Ricardo Corona

quinta-feira, 16 de julho de 2009

NOMOS performance