quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Amphibia

Esta semana recebi a ótima notícia de que o meu livro Amphibia já estava no site da editora portuguesa Cosmorama (http://catalogo-cosmorama.blogspot.com/). Ainda não peguei em mãos o livrinho que mostrará parte da minha poesia (pois reúne num só volume Cinemaginário e Corpo sutil) para o público português e estou entusiasmadíssimo com a ideia. Abaixo, pra celebrar, um poema e a apresentação do poeta uruguaio-mexicano Víctor Sosa, parte espanhola das três línguas que compõem Amphibia.




















VENTOS E UMA ALUCINAÇÃO


1.
sol tórrido no
aljazar

(lascas de zinco refletindo)

sol batendo
no sal

2.
das costas
do homem na barcaça
— e deu-se à estampa

(um sopro quente passa)

um caligrama na asa
do anjo
aprendiz da chuva

3.
rubricando, rebatendo
no arco-íris riso
da híbrida holografia

(do solo sobe um hálito quente)

espumas ainda agonizam
e novamente
o mar traz à margem sua franja

4.
atrás das pálpebras
o olho dá forma ao sol
: bola vermelha

(um vento mantra passa)

a íris fosforesce
aureolando as pupilas em brasa

5.
no cine Céu
a sessão inicia pelo fim

(o rubro horizonte nubla de repente)

barbatanas no céu anfíbio
guelras no céu íntimo

6.
hojes mais longínquos
lembram
ontens ancestrais

(um peixe roça a pele da pedra)

há uma escritura definitiva
nas estrelas
sílabas

7.
: a gula de luz
de uma galáxia canibal

(a lua finge mas já reflete sóis)

há anos-luz daqui
Andrômeda é a esfinge
da via-láctea









Anfíbios sutis
por Víctor Sosa


Ricardo Corona é um artista completo. Poeta, sim, mas um poeta que sabe como integrar a imagem escrita à imagem sonora, o ritmo à ideia, o necessário substrato oral e corporal a um claro conceito. Suor e sintaxe, fôlego e sólido fundamento, estrutura que flui: pedra evaporada em sons. Este equilíbrio entre o etéreo e o denso, entre o melódico e o rítmico, entre o que ruge e o que sussurra, é o atributo de uma sensibilidade poética − insisto − completa e − sem dúvida − singular. Mas como Corona alcança esta singularidade expressiva? Escutando. Ouvindo com atenção essa tradição − a sua, a nossa, a de muitos − chamada modernidade. Porque todo poeta é um acúmulo de vozes, de influxos, de permanentes ou efêmeros feitiços que ressoam, consonam, reverberam nessa caixa de ressonância com nome próprio que, neste caso, se chama Ricardo Corona. Nela se entrecruzam e se integram (ou seja: se fazem outros na hibridização) alentos como Pound, William Carlos Williams, Leminski, Kurt Schwitters, Hugo Ball, Lautréamont, Ginsberg, Jim Morrison, Mallarmé, Jerome Rothenberg ou Haroldo de Campos. Mas a modernidade e seus representantes também se formam de outras tradições e apropriações culturais, feito o dadá com os cantos tribais, Pound com a poesia chinesa antiga, Rothenberg com as poéticas “primitivas” da Nova Guiné, e tantos outros artistas − até chegar a Corona, que também se alimenta de cantos dos índios yanomami ou dos suruí de Rondônia, bem como dos ritmos próprios das tradições afro-brasileiras. Assimila-se os alimentos com seus diferentes nutrientes até fazer parte de um novo organismo gestor, de um novo recipiente em atenta reciprocidade com aquilo que recebe. O poeta recebe e dá, mas nessa dialética nutritiva se funda sua voz, sua sintaxe peculiar, seus acentos e silêncios − isso que é chamado estilo e que é, sobretudo, respiração personalizada na linguagem. A respiração de Ricardo Corona − que nasce da sua experiência corporal com a linguagem − é reconhecível por sua coerência. Uma coerência nascida, como já disse, do equilíbrio, da emoção − sempre necessária − aquilatada na contenção e ritmo, do assombro diante do mundo que vira palavra. Em Cinemaginário (1999) já vemos essa coerência, essencial, em que confluem mundo e língua: “há uma escritura definitiva / nas estrelas / sílabas”. O universo como livro a decifrar (em correspondência com Baudelaire), mas também como meditação mântrica para além de toda explicação logocêntrica: “um vento mantra passa”, e esse vento funde som com sentido, meditação com reflexão, corpo com intelecto, natureza com cultura. Corona desenha o mantra no verso e vemos (ouvimos) esse vento-verso-mantra nas ondulações da linguagem. Concentrada sintaxe poundiana, mas também, sempre, celebração nessa “poesia // na farra na liga // das línguas!”. Celebração amorosa onde o amor se reúne num espaço análogo, abrangente, igualmente grandioso: “e o amor / não é maior / nem menor / que o mar”. A sabedoria de Corona está em aceitar essa pulsação de amor e mar, assim como na consciência da escritura pessoal que se faz e desfaz no mar da linguagem, nesse fluxo de influências imantatórias, nessa constante metamorfose da poesia: “Ondas deslizantes / redesenham / onde outras ondas ainda / desredesenharão, / fluindo / no fluxo / da influência”. O mundo em constante remodelação (mais natural que divino) e a escritura em sintonia com esse fluxo. Tudo desenha uma mágica causalidade como quando “a chuva desce / pelo cheiro / a terra agradece” e “como as pedras duras / um dia acordam dunas”. Corpo sutil (2005) prossegue nesta pesquisa sobre a linguagem e o mundo, e também sobre esse delicado equilíbrio − corda tensa − por onde Ricardo Corona avança. E começa com uma referência à linguagem zaum do poeta russo Khlébnikov, que deve ser entendida como uma piscadela para o leitor, uma maneira de enfatizar não somente uma escritura preocupada com sua sonoridade, mas também uma leitura que deve ser feita com uma atitude participativa e não passivamente; Corona exige leitores cúmplices que ouçam “o ideograma de Confúcio (...)/ a escultura sonora de Zappa / o sol dos sacerdotes do Egito (...)/ a bondade do bonsai / a estampa de Átila (...)/ o Rio de João Gilberto (...)/ o sachê perfumado do Buda...” e que olhem também, simultaneamente, aquilo que ouvem. Porque a poesia é uma coisa para ver e ouvir, e é algo que se faz com todo o corpo (sutil). Poesia-palimpsesto onde vemos (ouvimos) um dia de verão com as roupas que se agitam no varal e, por sua vez, um ônibus que voa pelos ares, uma mesquita que explode, um menino palestino morto; realidades simultâneas vistas-sentidas-ouvidas pela televisão, o cinema, os jornais de cada dia. Massa de imagens e carne humana, de palavras que brincam com corpos: palimpsesto de vida. Palimpsesto e anfíbios. Zona líquida. “As palavras são peixes dentro d’água” e vão movendo-se (“tá viva a letra”) “no fluxo vivo sem capítulos, / contra a métrica das ondas”. O corpo sutil de Corona é aquoso, não por debilidade, mas por profundidade, por densidade ancestral, por ser anfíbio: “menino-peixe, meio fauno / meio deus marinho / que Iemanjá devolve ao mar”. Também, “uma ninfa montada numa égua d’água” atravessa o corpo sutil desse livro: “livro feito de água”, livro perfeito “porque não se pode / guardar”, como o rio-livro de Heráclito, o livro-peixe de Corona não quer ser eterno, quer se diversificar na densa unidade “no lugar que não se respira / ar”. Em “Estilo da boca”, também anfíbia e dialógica, irrompe a oralidade de Jardelina da Silva e com ela a poesia de cada dia, a gargalhada, a primeira pessoa do singular, a que leva o mundo inteiro dentro de si. Corona se deixa penetrar por esse mundo, por essa fala, porque “tudo que eu falo é o planeta”, e olha de soslaio e escuta os múltiplos sentidos e olha para dentro e olha para fora e abandona a velha poesia vertebrada. Corona transforma-se num invertebrado da língua: “bate n’água / rebate n’alma”, e, com o ouvido atento, faz-se tambor, coração-tambor: bomba. Faz-se tupi na fala percussiva: “ondéquetão / ondéquetá / ondéquetão / ondéquetá” e torna-se somali e, com os cantos dos índios suruí, espírito das águas. Naturalmente, a condição do poeta é ser muitos, e Ricardo Corona flui em sua multiplicidade e metamorfose das formas. Contra o fragmento, cria fractais; contra os buracos negros, cria música; contra o caos, cria silêncios límpidos, estruturas cristalinas e aquosas, poemas-anfíbios. Como diz em Corpo sutil: “contradizer até o fim (...)/ boca maldita não é beata / língua má não cria fungo”. Contradizer o sentido comum, contradizer o politicamente correto, contradizer Caetano Veloso, contradizer a si mesmo: “escrevo para não ser chamado de poeta”, porque “quem me inventou / criou o seu avesso”. Sem dúvida: “a poesia não cabe numa vida”; sem dúvida: a poesia é um longo processo de desobediência; sem dúvida: “a posição da poesia é oposição”. O poeta Ricardo Corona está fazendo um verdadeiro e profundo trabalho de oposição com sua poesia, e o faz com inteligência, com sensibilidade e com um sincero compromisso ético com o mundo e com a linguagem. Integridade, tão sutil quanto corporal, a que devemos agradecer com nossa leitura cúmplice.

Cidade do México, dezembro de 2008.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

TORTOGRAFIA

O trabalhos abaixo fazem parte do livro Tortografia (meu e da Eliana e editado pela Iluminuras, 2003). São trabalhos-pausas da nossa conversa infinita sobre arte. Esse livro representa isso. Nós fizemos trabalhos que contêm poesia e artes plásticas e/ou a partir do que estas nos serviram e na medida em que puderam dilatar-se para receber outras "falas" do nosso processo de criação. Um espaço de confluência que resultou em coisas que gostamos de chamar apenas "trabalhos", com desdobramentos da poesia para o universo das artes plásticas e destas para o campo poético e com intensidades variáveis. Nós buscamos um espaço que também é o da performance, em que as linguagens se abrem para o despaisamento, para o não-ser, para além da categoria. A seguir, os trabalhos 'biografias', 'micro', 'exemplar' e 'macro'.


























quinta-feira, 8 de outubro de 2009

DOIS POEMAS DE GARY SNYDER


ONCE ONLY


almost at the equator
almost at the equinox
exactly at midnight
from a ship
the full

moon

in the center of the sky


Sappa Creek near Singapore
March 1958

(from THE BACK COUNTRY)


UMA VEZ SÓ


quase no equador
quase no equinócio
exatamente à meia-noite
de um navio
a lua

cheia

no centro do céu



ARTS COUNCILS


Because there is no art
There are artists

Because there are no artists
We need money

Because there is no money
We give

Because there is no we
There is art

(from Axe Handles)



CONSELHOS DE ARTES


Porque não há arte
Há artistas

Porque não há artistas
Precisamos de dinheiro

Porque não há dinheiro
Nós damos

Porque não há nós
Há arte


Traduções Ricardo Corona

terça-feira, 6 de outubro de 2009

NEM BEATLES NEM NINGUÉM


UM POEMA

CÓCEGAS

ao Cauê



encostamos nossas barrigas
e rimos ouvindo o ruído
das pedras do saber
acumuladas no estômago

umbigo com umbigo
havia o dentro
(e um fora centrípeto)

o rumor no ventre
o vômito ao mestre
o cuspe ao ídolo

sem afastar nossas barrigas
com as pedras do saber
acumuladas no estômago
rimos do gozo desse rumor

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

AS VIOLAS DE BOLSO DE WILLIAM CARLOS WILLIAMS

William Carlos Williams (1883-1963) é um dos poetas norte-americanos de minha preferência. Quase toda a sua poesia foi muito bem traduzida por José Paulo Paes. Mas creio que a edição (Companhia das Letras) está esgotada, não sei. O fato é que está um tanto sumida das rodas atuais. E Williams é imprescindível.
Para quem não sabe, o poeta era médico e passou a maior parte da sua vida na pequena cidade de Rutherford/New Jersey, na costa leste dos EUA, exercendo a sua profissão e fazendo isso, principalmente, para as pessoas mais necessitadas.
Como poeta, um “artesão”, na definição poundiana e começou a escrever sob a influência do movimento imagista – grupo de poetas ingleses e americanos liderados justamente por Pound e que levaram às últimas conseqüências a construção/captação da imagem do poema.
Se os principais poetas da época – Ezra Pound, T. S. Eliot, Wallace Stevens, Mariane Moore e outros – buscavam empreender grandes projetos (no sentido cosmopolita que se possa dar a isso) para as suas poéticas, inclusive recheando-as com necessárias citações bilíngües (vide Pound na pluraridade de referências nos Cantos, mas sob a perspectiva de que também articulava para fazer frente à lacuna deixada pela Divina Comédia, de Dante...), Williams elaborava a sua poesia com lances do cotidiano, coisas mínimas: um vaso de flores, o gato, a cabeça de bacalhau, as ameixas secas, o carrinho de mão vermelho, a árvore sem folhas, a chaminé amarela etc. Uma poesia escrita de modo particular e bem próximo do que o próprio poeta sinalizara em “The Poem”: made of particulars, wasps, a gentian – something immediate, open scissors, a lady’s eyes (...).
Por outro lado, Williams engendrou um projeto poético que pode parecer simples, mas se isso for visto como uma simplicidade oriental, ou seja, simples sem facilitação. A imagem (como no haicai) põe em funcionamento a sensibilidade sobre as coisas mínimas para um “retorno às coisas”, e aproximando ao máximo os ritmos da poesia aos da fala cotidiana.
Williams trouxe para a literatura essa "fala" inconfundível e soube “descobrir o universal no particular” em flashes precisos, enxutos, cheios de sabor, humor e surpresa, impondo um ritmo do “dizer”. Mas um dizer que mostra o assombro das coisas como elas são: “no ideas but in things” (não idéias, mas coisas).



THIS IS JUST TO SAY

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold


ISTO É SÓ PRA TE DIZER

Comi
as ameixas
que estavam
na geladeira

e que
provavelmente
você reservava
pro café da manhã

desculpe-me
estavam saborosas
bem doces
e bem frias


A SORT OF A SONG

Let the snake wait under
his weed
and the writing
be of words, slow and quick, sharp
to strike, quiet to wait,
sleepless.

- through metaphor to reconcile
the people and the stones.
Compose. (No ideas
but in things) Invent!
Saxifrage is my flower that splits
the rocks.

(from THE WEDGE, 1944)


UMA ESPÉCIE DE CANÇÃO

Que a serpente espere sob
suas ervas daninhas
e que a escrita
se faça de palavras, lentas e vivas, rápidas
no golpe, quietas na tocaia,
atentas.

- pela metáfora reconciliar
as pessoas e as pedras.
Compor. (Não idéias,
mas coisas) Inventar!
Saxífraga é a minha flor que fende
as rochas.


THE POEM

It’s all in
the sound. A song.
Seldom a song. It should

be a song - made of
particulars, wasps,
a gentian - something
immediate, open

scissors, a lady’s
eyes - waking
centrifugal, centripetal

(from THE WEDGE, 1944)


O POEMA

Tudo está
no som. Na canção.
Na rara canção. Melhor

que seja uma canção – feita de
minúcias, vespas,
uma genciana – algo
imediato, tesoura

aberta, olhos
de senhora – desperta
centrífuga, centrípeta


Tradução Ricardo Corona